Comentário sobre o ESE Cap 05 – BEM AVENTURADOS OS AFLITOS – A infelicidade real

 

Nós nos queixamos de tudo. Como ressalta Roosevelt Andolphato, parece que a queixa está tão enraizada que se transformou num ato social. Para quebrar o gelo e iniciar alguma interação, lá surge a queixa sobre a chuva, sobre o sol, o calor ou o frio. Queixamo-nos da corrupção e orgulho dos líderes, da falta de educação e de consciência dos liderados, dos criminosos e dos policiais, do árbitro que dá falta e do que não dá. Não importa o momento, o lugar, o interlocutor, o assunto, no fundo o que importa é a queixa que assim vai crescendo em nós e em nossas vidas até se transformar num hábito difícil de tirar.

 

Ressalta esse divulgador do espiritismo que na infância idolatramos os adolescentes por entrever neles uma potência que não temos, mas ao chegarmos lá almejamos a idade adulta que será quando teremos meios de realizar nossos sonhos. O filho, por exemplo, não consegue entender que ele tem mais dinheiro que o pai apesar de a mesada ser muito menor que o salário, pois o dinheiro do filho é para ele, enquanto que o do pai evapora. Pois ao adulto nada lhe parece mais feliz que a aposentadoria. Mas, pela etimologia da palavra, aposentadoria quer dizer ficar recluso em seus aposentos, idoso é o que é ido, o que já foi. Será que isso é que é ser feliz?

Somos viciados em queixa. Tanto que não percebemos sua gênese, sua genealogia, seu contexto.

 

A queixa surge de qualquer situação que nos desagrada. O pior é que, de acordo com o olhar que temos feito prevalecer em nossas vidas, tudo desagrada. Como bebês, colocamo-nos como o centro do universo, o qual repartimos entre o que nos agrada, e nos faz felizes, e o que nos contraria, quando então entristecemos. O imediatismo infantil, incapaz de pensar em perspectiva, é assim.

 

Numa escola, se metade de uma classe estiver estudando, concentrada nas lições do professor e a outra resolver faltar às aulas para vagabundear, para fumar, quem olhar pelas aparências terá a impressão, pelas feições dos alunos, que os que estudam são infelizes, os que bolam aula, felizes. Mas e quando chegarem as provas?

 

A filosofia, a reflexão sobre a vida nos mostra que há muito mais na vida que indicam as aparências. Os romances espíritas, então, favorecem que vejamos a vida em perspectiva. Começa a trama apontando violentos e violentados, agressores e vítimas e identificamo-nos com os que sofrem. Invariavelmente, no entanto, somos surpreendidos por uma encarnação anterior em que o perseguidor de hoje foi o perseguido de ontem, a vítima foi o algoz, e tudo então muda. Fica sempre a questão: quando é que esses personagens irão transformar os padrões doentios aos quais se acostumaram?

 

A queixa é filha, assim, do imediatismo, das aparências, mas também da dúvida. Ou será que alguém que realmente acredita em Deus, deixou-se embeber da máxima bíblica de que não cai uma folha de uma árvore que não seja pela vontade de Deus, poderá ficar se queixando? Não é à toa que, em sua oração, São Francisco opôs a dúvida à fé. Não há meio termo: ou a gente opta pelo caminho da dúvida ou pelo caminho da fé. Se não acreditamos em nossos pais não lhes aproveitamos as lições, se não confiamos em nossos médicos seus remédios não serão eficazes, se não acreditamos em Deus fechamo-nos na armadilha da autocompaixão e da revolta. No fundo, do orgulho.

 

Seria um absurdo de petulância comparecermos à frente de um médico e lhe dizermos o que temos de doença e o que precisamos receber em tratamento, apresentando-lhe um receituário preenchido por nós com indicação de remédios e doses para que o profissional apenas assine. Ninguém faz isso, porque respeitamos o saber, a capacidade do profissional. Mas por que então nos apresentamos a Deus nos cultos, sobretudo em nossas orações, como se já soubéssemos tudo o que precisamos, fazendo pedidos absolutamente concretos, objetivos, com prazo, lugar e circunstância? Será que respeitamos, confiamos e acreditamos realmente em Deus?

 

Mas o pior mesmo da queixa por nossa infelicidade é a cronificação. Como nos alertam personagens de desenhos animados antigos que se acostumaram com queixas – dizendo, a todo tempo, oh vida, oh dor, oh azar!... – uma nuvenzinha negra, nos seguirá chovendo, e com raios, apenas em cima de nós. Porque a infelicidade é decorrente de nossa estreiteza de visão, nossa pobreza de perspectiva, mas também da lei de sintonia que a consolida. Acostumados à queixa, sem perceber, cultivamos pensamentos pessimistas, duvidosos, de menos valia, de rancor e de culpa, e essa é a verdadeira infelicidade.

 

Pois essa mensagem vem nos falar que a infelicidade verdadeira está justamente naquilo que mais buscamos. Diz-nos que a autêntica infelicidade está nas falsas alegrias da posição social, do destaque, da beleza, da conveniência, do poder. Não é à toa que essa mensagem comenta o Sermão da Montanha.

 

Nele, Jesus questiona os valores mais importantes à criatura anunciando-nos essa verdadeira infelicidade dizendo: ai de vós ricos, que já vos saciastes aqui na terra, nada esperem no céu! Apresenta-nos valores completamente desprezados pela humanidade como os verdadeiros valores do espírito, como a humildade, o bem sofrer e a mansidão, verdadeiros xingamentos, espantalhos dos encarnados, que fogem dessas características como fossem a verdadeira infelicidade. Pois dos humildes será o reino dos céus, os que sofrem serão consolados, os mansos herdarão a terra, anunciou o Messias.

 

As provas já estão aí, os tempos são chegados. Estamos vivendo o período anunciado em que o joio seria separado do trigo, as cabras dos bodes, os peixes úteis dos inúteis. A esse anúncio, uma sensação de apreensão nos perpassa a todos, a essa certeza sobre a eminência do momento, sobressaltamo-nos como se algo grandioso fosse acontecer a cada momento sem perceber que já está acontecendo. Mais uma vez, no entanto, a humanidade equivocada vem traduzindo a transição planetária, espiritual, como o fim do mundo material, o que tem levado muita gente a preparar-se materialmente para provas que serão essencialmente do espírito.

 

Para bem aproveitar esse momento especialíssimo, só uma coisa é necessário possuir: valores espirituais sólidos. Ao invés de armazenarmos alimentos, combustíveis, velas, o que a fábula da cigarra e da formiga nos ensina é a armazenar valores, únicos capazes de nos alimentar a alma, fatores que distinguem as boas das más decisões. E as situações já se nos apresentam agora.

 

Quem vê os filmes e novelas busca os valores que estão sendo passados? Quem vê as notícias de crimes, ao invés de afogar-se no rancor e no ódio, faz uma oração pelas vítimas e agressores? Quem vive os fatos da vida busca seus significados, suas lições, não se deixando reter na superficialidade das fofocas? Não foi como exercício para a interpretação das parábolas de Deus, que colorem nossas vidas, que Jesus nos apresentou suas próprias parábolas plenas de fatos do cotidiano?

Sob a visão do futuro, a lição, o professor e a educação se transformam à vista do aluno e esse passa a aproveitar melhor a escola. Sob a visão da eternidade, os fatos aparentemente infelizes se nos revelam oportunidades, dificuldades e empecilhos se nos apresentam chances de crescimento. E só então perceberemos a queixa como doença da esposa de Ló que, voltada ao passado, transformou-se em estátua de sal.  

 

Apressemo-nos em aproveitar os fatos da vida para consolidar os valores cristãos, em exercitá-los em busca de uma vida de oração e caridade expressas não apenas nas formosas locuções e nos grandes gestos, mas no tom de voz, nos toque carinhoso, no olhar acolhedor que, cada vez mais, precisamos ser capazes de imprimir em cada momento, em cada relação, com cada pessoa que passa por nossa vida.

Exibições: 281

Respostas a este tópico


Eu que agradeço sua generosidade, Rosana. É sempre um prazer trocar informações. 


Rosana Garcia Saltys disse:

excelente texto. relata tudo com exatidão de como somos e agimos. a falta de fé e de DEUS no nosso interior e que nos leva a tantas reclamações. temos que refletir sobre tudo o que recebemos todos os dias, e parar de reclamar. esse e o caminho para melhora de nós mesmos. parabens e obrigada......

RSS

APLICATIVO RAETV

Nosso aplicativo para download gratuito no Google Play

ASSOCIE-SE E COLABORE

Artigos Espíritas

Por que apenas em setembro?

Por que apenas em setembro? 

 

O tema suicídio sempre me chamou atenção, tanto que, no ano de 2011, junto com dois amigos…

Espíritos de pessoas vivas: uma história de reconciliação.

Espíritos de pessoas vivas: uma história de reconciliação.

 

Wellington Balbo – Salvador BA

 

Um tempo atrás, quando saía do centro espírita, um senhor me abordou para narrar curioso fato.

Aspas pra…

Por que ideias não espíritas são ensinadas nos centros espíritas?

Pode ser que ao ler o título deste texto você imagine que se trata de uma espécie de censura ou proibição a alguma ideia veiculada no centro espírita. Por isso, faço o convite para que prossiga na leitura, pois, adianto, não se trata de censura ou proibição de qualquer…

Ridículo silêncio

                                                             RIDÍCULO SILÊNCIO

Há muitas espécies de provação para a dignidade pessoal e numerosos gêneros de defesa.
Há feridas que atingem a honorabilidade de família, golpes que vibram sobre a realização individual, calúnias que envolvem o nome, acusações gratuitas, comentários desairosos à…

É sempre tempo de receber visitas (por Jane Maiolo)

É sempre tempo de receber visitas

Por Jane Maiolo

Pois, se nem ainda podeis as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras?” (1) Lucas 12:26

 …

Últimas atividades

Douglas Alves Moreira curtiram a discussão FUNÇÃO DO DOUTRINADOR de Amigo Espírita
1 hora atrás
Amauri A. L. Silva curtiu a postagem no blog ENCONTRAMOS EXPLICAÇÕES de Nilton Cardoso Moreira
3 horas atrás
Amauri A. L. Silva curtiu a postagem no blog Postura Altamente Humanitária – Orson Peter Carrara de PATRIZIA GARDONA
4 horas atrás
os pae curtiu a postagem no blog Implicações da culpa (Jorge Hessen) de os pae
15 horas atrás
os pae compartilhou o post do blog deles em Facebook
15 horas atrás
Jacimara Vieira dos Santos curtiram a discussão Espíritos de pessoas vivas: uma história de reconciliação. de Wellington Balbo
19 horas atrás
Jacimara Vieira dos Santos curtiu a postagem no blog O MAU HUMOR MATINAL de ANA MARIA TEODORO MASSUCI
19 horas atrás
Ori Pombal Franco curtiram o evento “O Talento Perdido!”, com Rafael Brocco de Carlos Pretti - SCEE
22 horas atrás
Carlos Pretti - SCEE curtiram o evento “O Talento Perdido!”, com Rafael Brocco de Carlos Pretti - SCEE
22 horas atrás
Posts no blog por Nilton Cardoso Moreira

ENCONTRAMOS EXPLICAÇÕES

           É comum para todos os eventos que acontecem em nossa vida querermos achar explicações. É da natureza humana o ato investigativo, pois que todos nós temos anseios de querer saber o motivo pelo qual determinado fato aconteceu, mesmo que o evento tenha sido com outra pessoa.           Existem situações na vida que embora procuremos esclarecimentos a respeito, não…Ver mais...
ontem
os pae curtiu a postagem no blog Implicações da culpa (Jorge Hessen) de os pae
ontem
Posts no blog por PATRIZIA GARDONA

Postura Altamente Humanitária – Orson Peter Carrara

Toda cidade tem seu vulto histórico de destaque ou vários, a depender de sua história e origens no tempo. É comum que todos recordemos fatos da infância ou ainda que não tenhamos tido contato direto, até por questão cronológica, mas tenhamos conhecimento das ações e legado deixado por esses homens e mulheres que marcaram época, projetando suas ações no futuro.Vim de…Ver mais...
ontem
O evento de Carlos Pretti - SCEE foi destacado
Miniatura

“O Talento Perdido!”, com Rafael Brocco em Sociedade Colatinense de Estudos Espíritas

22 setembro 2019 de 9 a 10:15
“O Talento Perdido!”, este será o tema da palestra do fotógrafo, pesquisador e orador espírita Rafael Brocco, de Colatina-ES, no próximo domingo 22 de setembro de 2019, de 09 às 10h. da manhã, na Sociedade Colatinense de Estudos Espíritas. Rafael é um jovem talento da oratória espírita aqui de Colatina. Ele é evangelizador de juventude, estudante e trabalhador na área da…Ver mais...
ontem
Carlos Pretti - SCEE postou um evento
Miniatura

“O Talento Perdido!”, com Rafael Brocco em Sociedade Colatinense de Estudos Espíritas

22 setembro 2019 de 9 a 10:15
“O Talento Perdido!”, este será o tema da palestra do fotógrafo, pesquisador e orador espírita Rafael Brocco, de Colatina-ES, no próximo domingo 22 de setembro de 2019, de 09 às 10h. da manhã, na Sociedade Colatinense de Estudos Espíritas. Rafael é um jovem talento da oratória espírita aqui de Colatina. Ele é evangelizador de juventude, estudante e trabalhador na área da…Ver mais...
ontem
Posts no blog por os pae

Implicações da culpa (Jorge Hessen)

Jorge Hessenjorgehessen@gmail.comBrasília-DFMuitas crianças são induzidas a agir de forma sempre “correta”, conforme o padrão do seu meio ambiente, dos valores éticos, das pressões existentes. Quando a criança é obrigada a fazer as coisas dessa ou daquela maneira, todas as vezes que faz de forma diferente desenvolve a culpa. A…Ver mais...
ontem
Amauri A. L. Silva curtiu a postagem no blog Procura-se urgentemente quem ouça. E ouça com atenção! de PATRIZIA GARDONA
sexta-feira
Amauri A. L. Silva curtiu a postagem no blog Dolorosa advertência de ANA MARIA TEODORO MASSUCI
sexta-feira
Amauri A. L. Silva curtiu a postagem no blog O MAU HUMOR MATINAL de ANA MARIA TEODORO MASSUCI
sexta-feira
Joao Iudes Nodari curtiram a discussão O Homem que fizer estas coisas viverás por elas - Estudo (67) Cartas de Paulo de Feeak Minas
quinta-feira
Carlos Pretti - SCEE curtiram o perfil de luciane Duarte de souza
quarta-feira

Regras de uso e de publicação

 

 

© 2019   Criado por Amigo Espírita.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço