Neste capítulo procuraremos examinar as diversas visões existentes sobre Maria.

 

Nos Evangelhos, o único que "demora" em torno dos acontecimentos relativos aos primeiros anos da vida de Jesus e, por consequência, de Maria, é o evangelista Lucas. Neste, bem como nos demais, as narrativas relativas ao nascimento e etc. giram em torno dos primeiros capítulos. Assim, em Lucas, como não poderia deixar de ser, as narrativas vão do 1o. capítulo até os meados do 3o..

 

No entanto, deixando essas questões de somenos importância de lado, a descrição do evangelista é contraditória, em si mesma, no que se reporta à Maria e até mesmo à José. Vejamos um exemplo!

 

Como poderia Maria, após tudo pelo que passou, relativamente ao nascimento de Jesus, por exemplo, à anunciaçao (ou a visita do Anjo), principalmente, após seu canto, o Magnificat, justamente atestando sua compreensão e aceitação dos eventos, tendo entendido o alcance e a profundidade das ocorrências e etc., e, considerando ainda, por exemplo, o Benedictus de Zacarias relativamente aos mesmos eventos etc., portanto, em síntese, plenamente sabedora e cons-ciente de que aquela criança não seria uma qualquer, virar e dizer, mais tarde, conforme narrativa do próprio Lucas (sic.):

 

Assim que seus pais o avistaram, ficaram perplexos. Então sua mãe o inquiriu: "Filho, por que agiste assim conosco? Teu pai e eu nos angustiamos muito à tua procura! (1)".

 

Entretanto, mesmo após as explicações do Mestre, narra o evangelista: "Mas eles não compreenderam bem o que lhes explicara. (2)"

 

Procederam, consequentemente, como pessoas comuns e como se Jesus fosse uma criança normal. Ou seja, agiram como simples e meros mortais, como a um pai ou a uma mãe qualquer de nós outros! Portanto, é de se perguntar: Teriam eles, e, principalmetne, Maria, se esquecido de tudo? Onde, todas as ocorrências? E quanto à todos os acontecimentos? Esquecidos? Desprezados? Jogados fora ou, simplesmente, descartados? Creio que tal postura não coaduna, tendo-se em vista e considerando tudo quanto ocorreu, e todos os eventos pelos quais passaram. Então, constatamos com clareza e nítidamente a existência de uma contradição!

 

E, mais, se é verdade, conforme narra o evangelista, que ela, Maria, guardava tudo em seu coração (3), ela não poderia ter esquecido ou desprezado os avisos, os eventos e etc.

 

Por conseguinte, repetimos, ficam patentes as contradições de posturas, atitudes etc.

 

A mesma coisa podemos observar nos escritos do Espírito Humberto de Campos, através de Chico Xavier. Porém, no caso de Humberto de Campos, é óbvio que ele usou a forma literaria dos contos, dos apólogos (4) e etc., isto é, usou redutivamente a figura e o nome Maria, fazendo uma transposição, para transmitir-nos determinadas lições, informações, orientações e etc. Tudo isto para que pudessemos captar, entender e aceitar a situação, o contexto etc. que nos eram apresentados ou descritos; enfim, ele transubstanciou o contexto ao nosso nível, na conformidade com as nossas condições e situação.

 

Isso é o mais certo, evidente e aceitável, porque, um Espírito da envergadura de Maria não poderia ter determinadas posturas e atitudes narradas em seus contos. No entanto, este aspecto abordaremos no próximo capítulo.

 

Enquanto isto, a melhor descrição, a melhor narração que encontramos e assim consideramos é a do Espírito Miramez, através de João Nunes Maia. Concordamos, com eles, integralmente! Vemo-la como a mais fiel aos fatos e às ocorrências passadas.

 

Seja como for, não podemos perder de vista que tal assunto tem seus contraditores e suas controvérsias, até mesmo no Mundo Espiritual mais próximo à Terra, conforme nos assevera Emmanuel: "Muitos séculos depois da sua exemplificação incompreendida, há quem o veja entre os essênios, aprendendo as suas doutrinas, antes do seu messianismo de amor e de redenção. As próprias esferas mais próximas da Terra, que pela força das circunstâncias se acercam mais das controvérsias dos homens que do sincero aprendizado dos Espíritos estudiosos e desprendidos do orbe, refletem as opiniões contraditórias da Humanidade, a respeito do Salvador de todas as criaturas (5)".

 

Quanto à visão dos católicos e protestantes, não vamos entrar nelas.

 

No tocante à Codificação, é aquilo que dissemos no capítulo anterior. Kardec abordou o assunto muito, mas muito rapidamente e sem se afastar à visão descrita nos Evangelhos, a qual não foge muito da descrição de uma pessoa pouco acima da média, mesmo considerando todas as homenagens conferidas à sua pessoa, tais como "agracidada entre todas a mulheres" e etc. Porém, não podemos nos esquecer de como as mulheres eram vistas e consideradas naqueles tempos.  "[A partir de Jesus] Levanta-se a mulher da condição de animária para a dignidade humana (6)".


Mas, quanto a isto, foi assim mesmo?! Concorde às narrativas Evangélicas? Particularmente,  preferimos e ficamos com a narrativa de Miramez, por nos parecer uma descrição mais coerente com a realidade, mais consoante com os fatos, com a lógica e com o bom-senso.

 

Contudo, para que possamos ter uma ideia de como este assunto é espinhoso, verificamos uma contradição no próprio livro de Miramez, Maria de Nazaré. No prefácio da obra, o Espírito Lancellin, falando sobre Maria diz: "[Maria] Recebeu seu filho sofrendo a dor moral da incompreensao e, com ele ainda pequenino, deslocou-se de lugar a lugar, preocupada com a sua segurança (etc.)". Porém, Miramez, na mesma obra, não dá a entender isto não e tão pouco confirma esta informação. Ao contrario, pelo que diz, parece-nos mais acertado é não ter havido mudanças de lugar, contrariando a descrição de Lancellin.

 

 

_________________________________

(1) Lucas 2:48 tradução da Bíblia King James.

(2) Lucas 2:50 tradução da Bíblia King James.

(3) Lucas 2:51 tradução da Bíblia King James.

(4)  sm. 1  Narrativa que traz uma lição moral e, geralmente, tem como personagens animais ou objetos que agem e dialogam como seres humanos. [Ver tb. fábula.].

(5) Livro A Caminho da Luz, cap. XII, tópico O Cristo e os Essênios.

(6) Evolução Dois Mundos, cap. XX, tópico Revivescencia do Cristianismo.

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