1 - A Fé

Jesus, ao escolher os Apóstolos, designa-os como intérpretes de suas ações e de seus ensinos. - Ide, prega e curai. .. estas são suas exortações, tornando-os partícipes da construção do Reino de Deus. Entretanto, sentem eles as suas limitações. Não conseguem realizar o que Jesus pode.

Conta Mateus, no Cap. 17; 14 a 23, que um homem chegou-se a Jesus, pedindo pela cura do filho, lunático, uma vez que não o tinha conseguido com seus discípulos. A isto, Jesus teria respondido, dizendo (M: 17,17): - Ó raça incrédula e perversa! até quando estarei eu convosco, e até quando vos sofrerei? Trazei-mo aqui. M: 17,18 - E repreendeu Jesus o demônio que saiu dele e desde aquela hora o menino sarou.

Perguntaram-lhe os discípulos: M:17,19 - ... -Por que não pudemos nós expulsá-la?

Responde Jesus, M: 17,20 - .,. - Por causa da vossa pouca fé; porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá - e há de passar; ou nada vos será impossível.

É esta outra passagem contraditória, falando de demônios, como espíritos malfazejos, eternamente voltados ao mal, em luta contra Deus e seus filhos. Além do que descreve uma resposta contundente, ríspida, indignada, nada condizente com sua personalidade, e que Humberto de Campos, em Boa Nova, sequer faz transparecer possa ter acontecido. Mais ainda, faz a exaltaçâo da fé cega, no pressuposto tácito da teoria da iluminação, pela qual as possibilidades do homem resultam da iluminação direta de Deus ao homem de fé, concedendo-lhe, por isto, a graça, contra a idéia espírita de que faculdades, qualidades, sabedoria e amor, são conquistas que se alcançam evolutivamente, pela luta, experiência, trabalho e pela sublimação de tendências.

Bem e mal são conseqüências do nosso comportamento no cumprimento ou não da lei ([Espiritismo e evolução], Cap. 9). Não há espíritos malfazejos em luta perene contra Deus e seus filhos. Há apenas espíritos enredados temporariamente nas malhas da revolta e do inconformismo, mas com a oportunidade sempre aberta, ou por vontade própria, ou pela dor e sofrimento, à reconsideraação de caminhos.

2 - O REINO DE DEUS: REALIZAÇÃO NO!) CORAÇÃO

Humberto de Campos, em ([Boa Nova], Cap. 7), descreve a situação referida a Tadeu, que perguntava a si mesmo por qual razão não lhe transmitia o Mestre esse poder e expulsar os demônios malfazejos, e por que, com sua autoridade não convertia ele definitivamente os inimigos da luz ao Reino de Deus.

Jesus, em tom austero, "desfaz-lhe antes de tudo, a idéia de que existam inimigos da luz. .. indispensável se faz reconheçamos que todos somos irmãos no mesmo caminho!. .. os que vestem a túnica do mal envergarão um dia a da redenção pelo bem .. , O discípulo do Evangelho não combate propriamente o seu irmão... apenas combate toda manifestação de ignorância ... " ([Boa Nova], Cap. 7), começando por si mesmo.

A incapacidade reconhecida pelo discípulo, de não poder realizar como Jesus, deve-se à não edificação do Reino de Deus no coração, de ainda não ter forjado, dentro de si, as conquistas da sabedoria e do amor.

André Luiz, em ([No mundo maior], Cap. IV), narra episódio em que Calderaro, ao atender caso de obsessão de duas entidades, cessa a um certo momento, surpreendendo André Luiz, que o inquire. Ao que Calderaro responde: - "Falaríamos em vão, André, porque ainda não sabemos amá-las como se fossem nossos irmãos ou nossos filhos. .. se o conhecimento auxilia por fora, só o amor socorre por dentro. .. E nós ambos, por enquanto, apenas conhecemos, sem saber amar ... "

A seguir o caso é atendido por Cipriana, cuja atuação é descrita em ([No mundo maior], Cap. V), no qual salientamos a seguinte observação: - "O coração que ama está cheio de poder renovador ... o conhecimento não basta; há que ser o homem animado de força divina, que flui do jejum pela renúncia, e da luz da oração, que nasce do amor universal."

Esta é a realização máxima que devemos efetuar em nós mesmos. E à pergunta de Tadeu: - "Senhor ... de que necessitarei para afastar as entidades da sombra, quando o seu império se estabelece nas almas? .. " -, responde: ˆ"necessitas da edificação do reino no âmago do teu espírito, sendo este o objetivo de tua vida. Só a luz do amor divino é bastante forte para converter uma alma à verdade." ([Boa Nova], Cap. 7).

3 - O PODER DA FÉ

Mas então qual o papel da fé? Antes de tudo, o Espiritismo consagra a fé raciocinada, a fé baseada no conhecimento, que nada tem a temer do progresso, contra a fé cega ([O Evangelho Segundo o Espiritismo], Cap. XIX).

Humberto de Campos trata dela em ([Boa Nova], Cap. 8), em que apresenta Bartolomeu sempre triste e amargurado, desanimado, e para quem todo esforço é inútil. Jesus fitando-o brandamente, fala-lhe com serenidade, esclarecendo-o de que, embora ele tivesse afirmado não ser seu reino deste mundo, isto não significava que não desejasse estendê-lo aos que mourejam na Terra.

Só que o alcançá-lo não seria fruto de disposições excepcionais, concedidas pela Divina Vontade em circunstâncias especiais. Mas seria uma conquista, filha do esforço e do aperfeiçoamento íntimo em que as dificuldades não podem ser encaradas como uma demonstração de que não estamos aptos a realizar por nós mesmos; porém, como indicação das ilusões e das imperfeições que temos a desfazer e que podemos efetuar desde que nos munamos de firmeza de ânimo e resolução, sem incertezas e ansiedades, confiantes de que quem nos criou está também a nos guiar, e desde que nos disponhamos ao crescimento próprio, produzindo para o bem de todos.

4 - A IDADE DO ESPíRITO

Além disso, considerar que cada um é colocado na posição que lhe compete e que, em termos de realizações, a ninguém é dado superar o estágio em que se encontra, a não ser pelas obras e pelo que produz para benefício geral.

A pergunta formulada em Mateus: 18,1 ... Quem é o maior no Reino dos Céus? .. , responde-se que as Espíritos qualificam-se em função da sua capacidade de realização, da edificação interior, fruto da sabedoria e outros é consideração que não cabe entre nós, mesmo porque desconhecemos a origem do espírito.

O que há são espíritos integrados ou não na seara das realizações; cada um situado em função do que tenha dado à vida em termos de "tempo de esforço pessoal na construção do destino, e o que a vida lhe deu em termos de evolução;' ([Mecanismos da mediunidade], Cap. I), integração esta de que sempre poderemos desfrutar, quando nos lembremos dos fins sagrados de nossa vida, independentemente do estágio em que nos encontremos.

5 - ESQUECIMENTO E PERDÃO

A repercussão das pregações, curas e da doutrina consoladora, suscita as atenções dos sacerdotes judaicos que passam a ver, em Jesus, uma ameaça às suas crenças e instituições.

Muitos o viam como um perigoso revolucionário, um conspirador vulgar, um feiticeiro fora do comum. Contra isto revoltavam-se os Apóstolos que ansiavam por confrontação, debate, refutação, a fim de fazer triunfar a Verdade. Não entendiam por que o Mestre não se dispusesse à contestação.

Jesus explica que as discussões intermináveis a nada conduzem. Como diz o provérbio árabe: - contra a escuridão, mais vale acender a luz de um fósforo, do que todas as imprecações.

A cristalização de idéias não se vence com duelos verbalísticos, porém só com a sabedoria alcançada pela renovação de experiências ou com a dor.

- Falam mal? ... "Nas ilusões que as criaturas na Terra inventaram para sua própria vida, nem sempre constitui bom atestado da nossa conduta o falarem todos bem de nós. .. necessitamos obter a aprovação legítima da consciência, dentro de nossa lealdade para com Deus" ([Espiritismo e evolução], Cap. 10), antes de qualquer outra coisa.

Certamente há que observarmos vigilância, a fim de defender a paz. "Como é possível preservar algum patrimônio precioso sem vigiá-lo atentamente?" ([Vinha de luz], n° 132).

Entretanto, é preciso entender que se os nossos detratores ainda não edificaram o Reino de Deus em si mesmos, nós também estamos empenhados em idêntica edificação. O que importa é que não alimentemos odiosidade em nossos espíritos, procurando compreender e perdoar, sem retribuir o mal com o mal.

Jesus apregoou abandonar a vingança, o "olho por olho, dente por dente ... ". Assim como se dá com a reencarnação. Nela a memória de situações pregressa nos falta, o que se constitui em fator de reajuste, renovação e progresso. Da mesma maneira devemos proceder em nossas diferenças com o semelhante: apagar o passado e reiniciar os entendimentos, sem a bagagem de ingredientes deteriorados, malsãos a fim de possibilitar a abertura de novas oportunidades de confraternização.

6 - OS MAIS APTOS PARA A EDIFICAÇAO DO REINO DE DEUS

A idéia do Reino de Deus como construção íntima de aprimoramento não é de súbito entendida. Sempre se conjectura da organização de um novo Estado com a estrutura que distingue os indivíduos no que respeita à sua participação no poder. Em conseqüência, surge a pergunta de quem serão os mais aptos. E é o que se subentende na interpelação de Levi a dois necessitados que queriam colaborar na edificação do Reino.

Que poderás realizar, Lisandro, aleijado como és?! E tu Áquila, não foste abandonado pela própria família, sob o peso de sérias acusações?" ([Boa Nova], Cap. 11).

A construção do Reino de Deus refere-se a realizações no campo íntimo como a do estudioso que visa a alcançar um conhecimento constituído de luta, eivada de repetições, insucessos e vitórias que lhe impõem trabalho e disciplina. Ou como a do artista, de quem se requerem ingentes esforços, a fim de educar sua própria sensibilidade e a manifestá-la com fidelidade por meio de seus próprios recursos. Em todos os casos, o que sustenta as determinações, são a fome de aprender, a sede de saber, a necessidade de afirmar-se em formas mais elevadas no terreno do espírito.

Os vencidos do mundo, muitas vezes, são os antigos gozadores de seus bens, os indiferentes, os acomodados, os que jaziam saciados, incapazes de sentir ou de vibrar, nos refastelamentos dos prazeres que a vida lhes oferecia, ou nos abusos de prerrogativas que a Providência lhes confiava, atrofiando legítimas possibilidades de elevação. Por isto, hoje, sofredores, preemidos pelo redespertamento da fome de aprender, da sede de saber, da ansia de amar. É nelas que a Boa Nova encontra terreno fértil de frutificação. São os que ouvem mais alto a voz de Deus.

"O leito de dor, a exclusão de todas as facilidades da vida, a incompreensão dos mais amados, as chagas e as cicatrizes do Espírito, são luzes que Deus acende na noite sombria das criaturas ... Suas almas são a terra fecundada pelo adubo das lágrimas e das esperanças mais ardentes, onde as sementes do Evangelho desabrocharão para a luz da vida... é também sobre os vencidos da sorte, sobre os que suspiram por um ideal mais santo e mais puro do que as vitórias fáceis da Terra, que o Evangelho assentará ,as suas bases divinas! ... " A Boa Nova, entretanto, não encontrará acolhida entre os saciados, os gozadores dos bens da vida. "Estes são pobres seres que caminham por entre tenebrosos abismos". Mas encontra-lá-á também nos "que ouvem e compreendem 'a palavra de Deus" ([Boa Nova], Cap. 11).

7 - RENÚNCIA

Jesus esclarece que não devemos contender.

Diz Emmanuel em ([Pão nosso], n° 98); - "Foge aos que buscam demanda no serviço do Senhor. .. é indispensável a vigilância do aprendiz, a fim de que não se perca no desvario das palavras contundentes e inúteis"

Certamente há que resistir ao mal, a fim de que não sejam comprometidas as obras do bem, mas com "a atitude do bem ativo, enérgico, renovador, vigilante, operoso."

O que se quer dizer é que o aprimoramento íntimo -- "O Reino do Céu no coração deve ser o tema central de nossa vida" ([Boa Nova], Cap. 12).

E, para isto, há que aprender a renunciar:

A vida, processando-se nos dois planos, nos conclama para o crescimento a diferentes experiências, modificação de situações, separações, que devemos aprender a suportar e a encarar com alegria.

É bem conhecida a passagem do mancebo rico que pergunta a Jesus o que fazer para conseguir a vida eterna (Mateus: 16, 19,21, 22, 23). Ao apregoar-lhe Jesus a renúncia aos seus bens, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades. Donde a observação de Jesus (M:19,23): "- Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos Céus".

Mas não só devemos desprender-nos da posse dos bens materiais considerando-a transitória. Mas também devemos fazê-lo em relação à associação com as pessoas como se depreende de Mateus 19,29: - E todo aquele que tiver deixado casa ou irmãos, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto e herdará a vida eterna.

Enfim, não só a posse dos bens é transitória, mas a própria associação com as pessoas, embora as afeições permaneçam consolidadas pelo amor.

Fonte:

comunidadeespirita.com.br; por Rino Curti.

 

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