Fogueiras modernas: o testemunho de Jan Hus.

 

Vinícius Lara da Costa

 

            Em 2019 comemora-se 650 anos desde o nascimento de Jan Hus. Escrever a respeito de Hus, no entanto, é uma tarefa difícil, e isso por alguns motivos: primeiro porque carecemos de fontes originais traduzidas em português a respeito do tema, e segundo, porque o perfil de Hus - se descolado da mitologia romântica das encarnações de Allan Kardec - é especialmente árido para nosso Movimento Espírita Brasileiro contemporâneo.

Hus nasceu em julho de 1369, em uma pequena comunidade localizada a aproximadamente 75 km de Praga, na Boêmia. Filho de camponeses, adentrou pelo caminho dos estudos em busca de uma melhor condição de vida, tendo se formado em Teologia, Filosofia e Artes, na Universidade de Praga. No ano de 1400 foi nomeado sacerdote e a partir de 1402 passou a realizar pregações na Igreja de Belém, também em Praga.[1]

Um traço marcante de sua formação intelectual foi a influência de John Wycliffe (1328-1384), considerado precursor das reformas religiosas que aconteceriam na Europa nos séculos XV e XVI. Wycliffe foi um sacerdote que trabalhou na primeira tradução da bíblia para o inglês e era conhecido por sua firmeza ao defender a incompatibilidade entre comportamentos eclesiásticos de seu tempo e os ensinos contidos nos Evangelhos. Segundo seu pensamento, a Igreja possuía muitas posses e poder, negligenciando os assuntos espirituais para se ocupar de eventos mundanos. Após sua morte, em 1415, foi ordenado que seus restos mortais fossem exumados, queimados e jogados sobre o rio Swift como forma de reforçar a perseguição eclesiástica ao teólogo reformista.

Baseando-se em Wycliffe, Hus seguiu um caminho bastante semelhante ao dele, não oferecendo reconhecimento à autoridade papal, considerava apenas Jesus como verdadeiro superior à Igreja, bem como os Evangelhos como única lei aos fiéis. Aos poucos suas divergências com o clero se tornaram tão claras que, em 1410, ele foi excomungado, o que gerou entre seus compatriotas uma grande festa que o elevava como herói nacional na luta contra o tráfico das indulgências e a política imperialista e dominadora que era adotada pela Igreja Católica. No ano de 1414 ele foi convocado a se apresentar junto ao Concílio de Constança (Alemanha) tendo sido preso e condenado à morte pela fogueira, o que enfrentou com dignidade, coragem e fé.

As sementes reformistas plantadas por Wycliffe e alimentadas pela postura de Hus foram muito importantes para o amadurecimento de uma crítica à função política da instituição Igreja, bem como para reflexões a respeito dos fundamentos dos ensinos de Jesus que deveriam se assentar sobre as bases da simplicidade, permitindo assim amplo acesso de todas as pessoas à verdade espiritual, sem intermediação de sacerdotes ou sacramentos. Martinho Lutero (1483-1546) juntamente com outros reformadores iniciaram movimentos semelhantes ao de Wycliffe-Hus no século seguinte, o que permitiu a realização do que a História registra como Reforma Protestante.

A admiração de Allan Kardec pelo mártir da Boemia é grande, e isso se pode notar pela mensagem ditada por ele na edição de setembro de 1869 a respeito das comemorações de 500 do nascimento de Hus:

Analisando através das eras a história da Humanidade, o filósofo e o pensador logo reconhecem, na origem e no desenvolvimento das civilizações, uma gradação insensível e contínua. – De um conjunto homogêneo e bárbaro surge, em primeiro lugar, uma inteligência isolada, desconhecida e perseguida, mas que, não obstante, faz época e serve de baliza, de ponto de referência para o futuro. – A tribo, ou se quiserdes, a nação, o Universo avançam em idade e as balizas se multiplicam, semeando aqui e ali os princípios de verdade e de justiça que serão a partilha das gerações que chegam. Essas balizas esparsas são os precursores; eles semeiam uma idéia, desenvolvem-na durante sua vida terrena, vigiam-na e a protegem no estado de Espírito, e voltam periodicamente através dos séculos para trazerem seu concurso e sua atividade ao seu desenvolvimento. 

               Além de Kardec, também Léon Denis faz menções a Jan Hus e algumas de suas obras[2], sempre destacando o caráter exemplar de sua conduta, que repercutiu pelos séculos como modelo de firmeza moral diante de excessos religiosos. Mas o que especificamente teria a vida e a morte de Jan Hus a nos dizer hoje?

Penso de modo objetivo que a herança hussista não seria outra senão o valor da contestação e da resistência íntegra diante dos abusos no campo da fé. Hus nos ensina sobre a necessidade de buscar a conexão com os ensinos espirituais a partir do coração e da mente, nunca seguindo rastros de formalismo externos. Aqui reside o tesouro mais precioso de seu testemunho, como também o de quase todos os heróis da virtude que nosso Ocidente conheceu e rechaçou.

  Vejamos alguns aspectos do pensamento hussista em transporte para a contemporaneidade. Gostaria de me ater a três tópicos, que, obviamente, pelo espaço que dispomos neste artigo, serão abordados de maneira superficial. São eles o valor da pobreza/ simplicidade em oposição à ostentação; o rigorismo diante do acesso à informação/“formação” e a burocracia na condução da comunidade de prática espirituais.

Já o primeiro tópico seria fatal para boa parte de nosso movimento espírita: a simplicidade. Jan Hus - assim como Wycliffe e Lutero - foi crítico severo da discrepância entre os ensinamentos de Jesus e a rotina da Igreja. Como podemos conciliar templos suntuosos, eventos caríssimos, máfias[3] livreiras em busca de recursos, palestrantes exigentes ao extremo com suas necessidades, ou federativas faraônicas e distantes da realidade das casas espíritas com os ensinamentos daquele homem que “não tinha sequer um lugar para repousar a cabeça[4]” e ensinava andando pelas cidades cercado de pessoas socialmente proscritas? Não é possível a conciliação, eis a questão!

Alguns companheiros poderão responder com recursos demagógicos como: “mas nós precisamos oferecer conforto aos participantes e frequentadores de eventos”, ou “é melhor quando recebemos palestrantes que vendem seus livro porque isso nos poupa gastos”, ou “mas os ricos e poderosos também precisam de atendimento” ou ainda, “organizando atividades grandiosas poderemos manter as tarefas sociais na instituição espírita e, neste contexto, os fins justificam os meios.” Infelizmente não é assim que acontece. O Espiritismo é uma ciência da mente e tem como função mais importante a capacidade de modificar nossa visão de mundo para percebermos a realidade material como transitória; uma ferramenta para superar vícios morais como orgulho, raiva, ignorância, apego ou inveja. Como apagar um incêndio se o alimentamos com todo tipo de combustível?

O argumento da massificação da doutrina é muito utilizado, sem que percebamos que, ao distribuir para as pessoas uma filosofia espírita misturada com alucinações e devaneios esdrúxulos estamos fazendo um desserviço para a doutrina e outro para a pessoa - vide casos como o de João de Deus, o de Otília Diogo, o de Maury Rodrigues da Cruz entre outros ainda não descobertos pela imprensa. Ninguém negará que remédios sejam úteis ao tratamento de doenças, desde que corretamente selecionados e ministrados com disciplina. Como podemos falar de valores morais como antídoto ao sofrimento em meio a “camarins” para palestrantes e identificações em telas de transmissão pela internet do tipo “fulano de tal - médium”?

Passando para o rigorismo e para a burocracia, que Hus combateu firmemente ao propor um cristianismo mais próximo das pessoas através do que chamava de “sacerdócio universal dos crentes” - ou seja,a crença de que qualquer fiel poderia se comunicar com Deus sem a intercessão de sacerdotes ou sacramentos - nos deparamos com outros desafios. Vem crescendo o número de casas espíritas extremamente engessadas em seu padrão de funcionamento, munidas com cartões de ponto, leitura biométrica ou outras coisas que compõem um conjunto de parafernálias modernas utilizadas para controlar seus frequentadores, enquanto estes percorrem o longo caminho de um currículo espírita com duração de anos - em alguns lugares mais de uma década - entre a adesão à instituição e a efetiva “liberação” para participar de trabalhos nas diversas áreas da casa, sendo o topo da escala sempre o departamento da mediunidade. Não é de se estranhar que, de modo geral, as instituições estejam perdendo seus jovens. Tudo isso leva tempo e burocracia demais, e o pior, são um mapa escrito de modo burocrático por pessoas de realidades diferentes daquela em que estão sendo seguidos. Falta lucidez ao processo.

Não faço aqui apologia ao despreparo - Hus não faria -, da mesma maneira que também não acredito que exercícios ascéticos estranhos seriam melhor do que toda essa “graduação” em Espiritismo. É preciso estudo e compreensão, mas tudo isso ladeado pela coerência e pela lógica.

Cada célula espírita possui o desafio de se construir sobre experiências reais de disciplinas físicas e morais para, em seguida, adaptar suas atividades à realidade particular do meio em que está inserida. Não são as federativas estaduais que devem definir como e quais estudos são melhores para uma casa espírita, nem mesmo a FEB tem condição de fazê-lo de modo absoluto. Sugestões, apoio e direcionamento, isso sim, cabe a nossos órgãos unificadores oferecer ao movimento. Agindo ao contrário vemos se construir o câncer que assola hoje o Espiritismo brasileiro: donos da doutrina, agressores contumazes dos grupos que não rezam em suas cartilhas e médiuns perturbados assinando literatura de mau gosto como se fossem verdades elevadas. E o resultado disso? Descrédito para o Espiritismo.

Me pergunto então, onde anda a coragem de romper com o círculo vicioso? De dizer não aos modismos tão travestidos de sabedoria inofensiva? De testemunhar a fidelidade ao pensamento de Jesus e de Allan Kardec sem a preocupação com as fogueiras ociosas de companheiros de movimento que lidam com o Espiritismo como se fosse uma copa de futebol? Eis aí o valor exemplar de Jan Hus, a coragem de assumir que o Espiritismo não é doutrina de massas, de reconhecer que conhecimento com arrogância é como veneno misturado no leite e de aceitar o compromisso modesto de viver a filosofia dos espíritos conquistando discernimento e paz capazes de se espalharem em nosso derredor.

O mundo em que vivemos ainda é lugar de provas e expiações e, com sinceridade, pode ser que jamais deixemos essa condição se não houver uma real guinada na direção do que importa verdadeiramente. Pessoas padecem a cada dia porque perderam o sentido existencial. Longe dos locais santificados do templo, nas ruas, nos metrôs, em escolas, supermercados, casas de família, bares ou bordéis há muita gente em sofrimento e é para elas que o Espiritismo existe, foi para elas que Jesus dedicou sua senda. Se nossa prática espírita acontece apenas entre as paredes do templo, com dia e hora marcada, debruçada sobre regras excessivas e que não estão presentes nos ensinamentos de Jesus, lembremo-nos de Jan Hus. O testemunho da humanidade nos convoca à coragem de servir, mesmo que com isso sejamos entregues às fogueiras modernas de nosso tempo.

  

 

[1] A maioria das informações biográficas coletadas sobre Jan Hus apresentadas neste artigo foram colhidas de outros textos disponíveis na internet. Destaco, entre eles, o artigo de Enrique Eliseo Baldovino, publicado na Revista O Reformador e disponível no endereço: http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/destaque/jan-huss-60...

[2] Entre elas podemos citar “No invisível’, “Cristianismo e Espiritismo” e “O Problema do Ser, do Destino e da Dor.”

[3] O Dicionário Michaelis da língua Portuguesa apresenta a seguinte definição de máfia: ¹ Organização criminosa originada na Sicília controladora de atividade ilícita; ² Qualquer grupo de inescrupulosos que se associam para praticar crime organizado. Creio que aqui nos interesse especialmente a segunda definição.

[4] Mat. 8:20

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