Hipocrisia gourmet: os riscos de uma seita chamada Espiritismo.

 

 

E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito:Este povo honra-me com os lábios,Mas o seu coração está longe de mim;

Marcos 7:6

 

 

            Talvez o número de revelações espirituais seja grande no mundo porque, com mais frequência do que desejaria nossa motivação de praticar o bem, temos pervertido e conspurcado grandes ensinamentos semeados ao longo da história.

Embora não seja passível de uma afirmação categórica, praticamente todas as grandes religiões surgiram a partir da experiência de espíritos maduros que, intuindo as Leis Naturais, as traduziram de acordo com a cultura e o tempo para seus companheiros. Assim, a primeira geração da religião costuma ser vigorosa, profética. Após a rolagem do tempo, porém, o que antes fora vigor tende a se transformar em rigorismo e os profetas, que são missionários sem formação institucionalizada e cumprem sua função por uma espécie de impulso íntimo, são lentamente substituídos pelo sacerdotes: doutores no texto e da língua.

O Espiritismo não possui sacerdotes, pelo menos não em sua feição original. Não temos - ou não deveríamos ter - palestrantes, médiuns, espíritos ou dirigentes de instituições, que apenas pela função que ocupam temporariamente são tomados como referências absolutas da verdade. Para o Espiritismo conforme organizado por Allan Kardec há apenas duas fontes de aprendizado seguro para os iniciantes: o estudo dos fundamentos da nova ciência e a observação dos fatos espíritas, donde se poderia derivar princípios mais ou menos gerais capazes de sustentar a filosofia e a moral. Deste modo seria ideal que o móvel para nossas ações se desse no campo da análise detida, da meditação profunda e da crítica fraterna, reconhecendo que a autoridade de um espírito ou de um espírita não é fruto de uma boa produção midiática, do número de livros que ele publicou ou pelo número de seguidores que fez ao longo da vida, essa autoridade advém, antes, da capacidade de efetivar transformação na visão de mundo de seus companheiros, reconhecendo-se sempre como mais um.

Nesta direção o problema da hipocrisia é um ponto central. Como disse uma vez Richard Simonetti, “os espíritas se odeiam fraternalmente” e esse ranço, que só é fruto do embaçamento mental e vaidoso de grupos e seus guias solapa, dia após dia, o que poderia ser uma unidade de princípios ampla no campo da prática espírita brasileira e mundial.

As divisões aumentam na medida em que não compreendemos a obra de Allan Kardec e, à guisa de auxílio, nos valemos de outros autores, por mais respeitáveis que sejam, para tentar edificar a fundação do Espiritismo em nós. Com humildade e respeito é preciso dizer que se a casa onde habita sua prática espírita está construída sobre a obra de Léon Denis, Chico Xavier, Divaldo Franco, Yvonne do Amaral Pereira ou outros nomes importantes do nosso movimento,  cedo ou tarde ela sofrerá fissuras porque fundação em Espiritismo se chama Allan Kardec. Todos os que vêm depois dele compõem paredes, telhado, acabamentos, enfim, acabamentos à obra de nossa morada espiritual. Acredito que o exemplo seja claro.

Mas o que isso tem em relação à hipocrisia? Ora, na medida em que não estamos seguros da base podemos descobrir que boa parte dos comportamentos adotados ante os nosso ídolos da caridade e da filantropia são belos, mas não possuem relação positiva com o Espiritismo. Vejamos alguns exemplos: Allan Kardec recusa, em o Livro dos Médiuns[1], várias mensagens atribuídas a espíritos renomados por não revelarem a elevação necessária, mesmo que bem redigidas. Quantas vezes nós, como movimento, pudemos fazer o mesmo com os espíritos que nos auxiliam sob a forma de “guias” seja na casa espírita ou nos congressos? Simplesmente por ter sido dito/ psicografado por este ou aquele médium as mensagens são isentas de equívocos?

Além disso, como lidar com problemas a respeito da cobrança e direitos autorais por parte de palestrantes que, divulgando o Espiritismo, criam plataformas de streaming pagas? Ou então, com a realização de eventos custosos, em hotéis, sob propagandas nada elevadas, alegando-se que o recurso dos eventos seria destinado à manutenção de obras assistenciais, os fins justificam os meios? Isso para não citar a mistura não ingênua entre terapeutas/médiuns/profissionais liberais que se apresentam com currículos longuíssimos antes de sua fala. O que impacta no entendimento de quem escuta e ensina sobre o evangelho se o expositor é engenheiro, mecânico, desempregado ou professor? Amigos, isso nunca esteve relacionado com o Espiritismo, nestas circunstâncias todos os ídolos são frágeis, e o pior, mesmo assim, adoramos o glamour de estar perto “do médium”, “do guia”, “da elite”.

Na Revista Espírita, em dezembro de 1863, o Espírito Erasto nos apresenta uma bela página a respeito do que ele identifica como os principais conflitos no seio do Espiritismo. É fácil perceber a atualidade do pensamento no que tange aos médiuns respeitáveis, porém humanos:

 

Hoje vossas falanges engrossam a olhos vistos e vossos partidários se contam aos milhões. Ora, em razão do número de adeptos, deslizam sob falsas máscaras os falsos irmãos dos quais ultimamente vos falou vosso presidente temporal. Não que eu venha recomendar-vos que não sejam abertas vossas fileiras senão às ovelhas sem mancha e as novilhas brancas; não, porque, mais que todos os outros, os pecadores têm direito de encontrar entre vós um refúgio contra suas próprias imperfeições. Mas aqueles dos quais vos aconselho que desconfieis são esses hipócritas perigosos, aos quais, à primeira vista, se é tentado e conceder toda a confiança. Com o auxílio de uma atitude rígida, sob o olho observador das massas, eles conservam esse ar sério e digno que leva a dizerem deles: “Que criaturas respeitáveis!” ao passo que, sob essa respeitabilidade aparente, por vezes se dissimulam a perfídia e a imoralidade.

 

Eles são acessíveis, obsequiosos, cheios de amenidades; eles insinuam-se nos interiores; eles entram voluntariamente na vida privada; eles escutam atrás das portas e se fazem surdos para escutar melhor; eles pressentem as inimizades, atiçam-nas e as alimentam; eles vão aos campos opostos, indagando, interrogando sobre cada um. O que faz este? De que vive aquele? Quem é fulano? Conheceis sua família? Depois os vereis ir surdamente desfilar na sombra as pequenas maledicências que conseguiram recolher, tendo o cuidado de envenená-las com untuosas calúnias. “São rumores em que a gente não acredita”, dizem eles, mas acrescentam: “Onde há fumaça há fogo, etc., etc.”

 

A esses tartufos da encarnação reuni os tartufos da erraticidade e vereis, meus caros amigos, quanto tenho razão de vos aconselhar a agir, de agora em diante, com extrema reserva e de vos guardardes de toda imprudência e de todo entusiasmo irrefletido.[2]

 

          Se não podemos alinhar estes comportamentos com o fundamentos extremamente simples do Espiritismo, como ainda investir em uma espécie de “guiismo” tão descarnado da lógica e do bom senso? A resposta não é racional, porque racionalmente isso não tem sentido. Na mediocridade de nossa carência humana, o sonho é ser amigo do rei…

Aí chegamos então a uma religião de estrelas, ansiosa por expandir o número de adeptos e muito atenta aos nichos mercadológicos em que se enquadra a fé. Uma crença dissidente da ortodoxia, que se arvora em correta, portanto, uma seita[3]!

Tomando emprestada uma ideia da psicanálise - tão cara aos movimentos psicologizantes do espiritismo pop - é quase como se entre posturas afetadas, eventos caritativos e poses para fotos acontecesse, eventualmente, atos falhos, nos quais representantes destas mentalidades estranhas resolvem falar em nome da filosofia espírita de questões ligadas a partidarismos sociais, poder, autoridade e moralismo. Há um recalque presente, talvez o prazer de ser autoridade. Um prazer narcísico, personalista. Que bom que a morte sempre vem e destrói tudo isso.

[1] O Livro dos Médiuns, cap. XXXI, Comunicações apócrifas.

[2] Revista Espírita, dezembro de 1863, Instruções dos espíritos, Os Conflitos.

[3] De acepção muitas vezes pejorativa, a seita é constituída de um grupo de indivíduos que professam uma doutrina diferente da doutrina considerada ortodoxa e majoritária. É o caso por exemplo dos hereges em matéria de religião; porém, quando ela se institucionaliza e adquire amplidão, a seita acaba por constituir uma Igreja: foi esse o destino, principalmente, das Igrejas protestantes. Como mostra Durkheim, o adepto, antes de se vincular à própria doutrina, quer participar a princípio do "sistema de forças coletivas" representadas pela seita. - DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Vinícius Lara da Costa

Leia também:  Fogueiras modernas: o testemunho de Jan Hus

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