Na própria carne

Maurício de Araújo Zomignani

     Qual o maior direito? Mesmo no estrito âmbito da justiça dos homens, os valores não são todos iguais. Saúde? Família? Respeito? Dignidade? Nenhum destes será importante, dizem os juristas, se não há vida. A vida é, para as criaturas, o maior valor, o maior direito. Consequentemente, em suas leis, o maior crime é aquele que atenta contra a vida.

     A questão, feita ao maior responsável pelos valores das sociedades ocidentais, teve outra resposta. Disse aquele homem que, acima de tudo, colocássemos o amor ao que é absolutamente certo, soberanamente justo, perfeitamente bom, situando como consequência natural o amor à porção dessa perfeição máxima que um dia reconheceremos no próximo e em nós mesmos, frutos que somos da mesma árvore, portanto integrantes de uma mesma espécie. Filho de peixe peixinho é e nós, aprendizes de pescadores de essências, deveremos ser capazes de jogar nossas redes novamente e sempre. Com esperança e fidelidade, orienta-nos o professor, a colheita será farta.

     A pergunta também foi feita à atriz. Não pela casuística do mundo que exige uma hierarquia de valores para julgar os casos dos indivíduos, não pela astúcia dos homens que montam ciladas à luz para que ela não revele suas sombras. A pergunta lhe foi feita pela doença. Inquirida pela ausência de sua mãe e pela falta que dela sentiu, pelos filhos que não queria que sentissem, questionada pela própria morte, a atriz optou por ambos: pela vida e pelo amor.

     No início mais modelo que atriz, ultimamente mais atriz que modelo, com a resposta a atriz passou a ser modelo. Mais modelo que ao pregar a proteção dos refugiados por todo o mundo, mais modelo que ao realizar a proteção dos refugiados em sua própria família. Ali, ela foi modelo como nunca.

     Discute-se agora detalhes da cirurgia e também se era a melhor terapêutica. Com todo respeito, pouco importa. O real torna-se insignificante quando o simbólico é eminente. Uma mãe que se amputa como declaração de amor aos filhos, indiretamente à sua própria mãe – e também a outras mulheres com alto risco de câncer – , como declaração de amor à vida, não pode ser reduzida a esses detalhes.

     Todos nós temos valores. Um hipotético ser destituído de valores seria tão apagado e inútil quanto um computador que não dispusesse de qualquer programa dentro dele. Estaria morto, mesmo que aparentemente aceso. Assim como serão os programas que darão utilidade a um computador, serão os valores que permitirão a uma criatura avaliar, decidir, pensar. Logo, existir. Esteja alerta.

     Até porque a cada um de nós a vida fez ou fará a mesma questão. Outro será o contexto, diversos serão os detalhes, mas todos enfrentaremos decisões delicadíssimas, difíceis. Preste atenção à lição dada pela vida, numa parábola real tão vigorosa como esta, tão inesquecível quanto as outras: em algum momento você também, de alguma forma, será levado a escolher entre sua vaidade, sua identidade, seu próprio corpo, ou a vida e o amor. Esteja preparado.

     Talvez também seja preciso cortar na própria carne.

Maurício de Araújo Zomignani é membro da Rede Amigo Espírita, assistente social em São Vicente/SP

E-mail: mauzomi@ig.com.br

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Respostas a este tópico

É fato verídico. Chega o tempo. Estar preparado é que são elas.

Maurício,texto muito bem escrito.Parabéns.

Pelos filhos...''TUDO"!!

Muito obrigado pela generosidade, Margarida e Sandra. Gosto muito da palavra e procuro conciliar a carpintaria zelosa da forma com o conteúdo útil na construção de um texto. Naturalmente nem sempre conseguimos, não?

Não sei se foi isso o que Sandra quis dizer, mas como nosso espaço e nossa preocupação aqui é a reflexão e a aprendizagem, quero manifestar uma preocupação que tal vez seja válida para alguém com essa programação mental muito comum que poderia muito bem ser expressa pelo seu "Pelos filhos... "TUDO"!.

Pelo que se observa, tal programação mental tem levado pais a erros enormes e pequenos. Há desde pais que fazem a lição pelos filhos, outros que justificam e encobrem seus erros, outros que tudo fazem para serem populares junto aos filhos e seus amigos. Até erros mais graves que - apesar de absurdos - devem nos servir de grandes chamamentos para revermos nossas atitudes frente aos filhos.

Acho que o avô paterno de Isabela Nardoni chamado pelo filho logo após o que parece ter sido um crime brutal, atendeu ao chamado (como todo pai faria), mas não refletiu sobre suas programações mentais, sobre o que é ajudar um filho, possivelmente programado pela máxima onipresente em nossa sociedade do "pelos filhos TUDO". 

Entendo Jesus como proponente de uma programação mental diferente. Ensinou-nos o amar o próximo, mas colocou tal ensinamento como um segundo mandamento. O primeiro, disse ele, é amar a Deus sobre todas as coisas. Tomando Deus por seus atributos como fizeram os orientadores em O Livro dos Espíritos, visto não nos ser possível compreender sua natureza íntima (questão 10 LE), amar a Deus será vincular-se, sobre todas as coisas, "ao que é absolutamente certo, soberanamente justo, perfeitamente bom" como aqui foi dito.

Com tais valores enraizados, muitas das atitudes listadas não aconteceriam. 

Baseados em Jesus e na Doutrina, devemos refletir, em nossa missão de pais, sobre a necessidade de reprogramarmos nossas mentes deixando de lado o "Pelos filhos TUDO" e fortalecendo em seu lugar, em nome do primeiro mandamento, o "pelos filhos, tudo o que for soberanamente justo e bom" (questão 13 de LE).

Um grande abraço a todos. . 



Sandra Maria Erhardt Dornellas disse:

Maurício,texto muito bem escrito.Parabéns.

Pelos filhos...''TUDO"!!

Bom dia Maurício.

Eu não sei me expressar como você.O ''pelos filhos ..''Tudo!",não é bem como você entendeu.

Mais uma vez concordo com o que escreveu em sua resposta.

Mas não é para esse lado.!!

É pena que aqui não tem como passar e_mail,ou em ''off",como no Face,aí poderia lhe passar a situação.

Mas,sim.! ''Pelos filhos,tudo o que for soberanamente justo e bom".

Um abraço,Sandra


Maurício de Araújo Zomignani disse:

Muito obrigado pela generosidade, Margarida e Sandra. Gosto muito da palavra e procuro conciliar a carpintaria zelosa da forma com o conteúdo útil na construção de um texto. Naturalmente nem sempre conseguimos, não?

Não sei se foi isso o que Sandra quis dizer, mas como nosso espaço e nossa preocupação aqui é a reflexão e a aprendizagem, quero manifestar uma preocupação que tal vez seja válida para alguém com essa programação mental muito comum que poderia muito bem ser expressa pelo seu "Pelos filhos... "TUDO"!.

Pelo que se observa, tal programação mental tem levado pais a erros enormes e pequenos. Há desde pais que fazem a lição pelos filhos, outros que justificam e encobrem seus erros, outros que tudo fazem para serem populares junto aos filhos e seus amigos. Até erros mais graves que - apesar de absurdos - devem nos servir de grandes chamamentos para revermos nossas atitudes frente aos filhos.

Acho que o avô paterno de Isabela Nardoni chamado pelo filho logo após o que parece ter sido um crime brutal, atendeu ao chamado (como todo pai faria), mas não refletiu sobre suas programações mentais, sobre o que é ajudar um filho, possivelmente programado pela máxima onipresente em nossa sociedade do "pelos filhos TUDO". 

Entendo Jesus como proponente de uma programação mental diferente. Ensinou-nos o amar o próximo, mas colocou tal ensinamento como um segundo mandamento. O primeiro, disse ele, é amar a Deus sobre todas as coisas. Tomando Deus por seus atributos como fizeram os orientadores em O Livro dos Espíritos, visto não nos ser possível compreender sua natureza íntima (questão 10 LE), amar a Deus será vincular-se, sobre todas as coisas, "ao que é absolutamente certo, soberanamente justo, perfeitamente bom" como aqui foi dito.

Com tais valores enraizados, muitas das atitudes listadas não aconteceriam. 

Baseados em Jesus e na Doutrina, devemos refletir, em nossa missão de pais, sobre a necessidade de reprogramarmos nossas mentes deixando de lado o "Pelos filhos TUDO" e fortalecendo em seu lugar, em nome do primeiro mandamento, o "pelos filhos, tudo o que for soberanamente justo e bom" (questão 13 de LE).

Um grande abraço a todos. . 



Sandra Maria Erhardt Dornellas disse:

Maurício,texto muito bem escrito.Parabéns.

Pelos filhos...''TUDO"!!

Prezado Maurício, o assunto é delicado e complexo, mas voce inseriu de maneira clara e oportuna.

Este tem sido o grande desafio da humanidade: vencer o temor da morte! A mãe teve câncer de mama e a filha uma provável chance... Mas quem poderá ter a certeza? Tomando por base o ensinamento espírita, sabemos que toda enfermidade, dentro da pauta de provações a que o indivíduo está sujeito, representa processo de purificação do espírito.

Sabemos também que, quase sempre, antes de manifestar no corpo físico, as células presentes no perispírito já se encontram enfermas. E a doença poderá ou não se manifestar no corpo físico, dependendo de nossa conduta, da necessidade passarmos por esta ou aquela provação.

Nem sempre cortar o corpo físico, poderá resolver a questão, se alma apresenta as condicionantes para manifestação da doença. Esta poderá expressar-se, se for necessário a prova, como mecanismo de drenagem do períspírito, em outro órgão, diferente daquele que foi parcialmente cortado.

Embora seja difícil compreendermos, mas, Emmanuel no diz, no livro Pão Nosso, Mensagem nº 100: “Nem sempre o Socorro de Cima surge em forma de manjar celeste.”

Ou seja, aquilo que para nós apresenta-se como desgraça ou infelicidade ou doença, pode representar recurso divino a nosso favor, em função de nossa visão estreita e materialista.

É nosso dever buscar sempre a cura dos males que nós mesmos provocamos, nesta ou em vidas passadas, lembrando porém que jamais conseguiremos fugir aos resgates necessários ao nosso aperfeiçoamento.

Abraços

Eurípedes Mariano.

Ótima reflexão Eurípedes!

Importante o comentário. 

As máximas populares quase sempre estão embebidas de sabedoria. Muitas delas vêm do Evangelho, como em "Quem com ferro fere com ferro será ferido". Mas não sei se há maior equívoco que em "De boa intenção o inferno está cheio". 

Acredito que não tenha ninguém no inferno com boa intenção exceto os emissários de Jesus para resgatar os que começam a acordar. 

A boa intenção e o bom coração iluminam e tornam insignificante tudo o mais. Quando o simbólico é eminente, o real torna-se insignificante. 

O texto quis enaltecer o símbolo maior da vida, o Amor. 

Abraços, 



Euripedes Mariano da Cunha disse:

Prezado Maurício, o assunto é delicado e complexo, mas voce inseriu de maneira clara e oportuna.

Este tem sido o grande desafio da humanidade: vencer o temor da morte! A mãe teve câncer de mama e a filha uma provável chance... Mas quem poderá ter a certeza? Tomando por base o ensinamento espírita, sabemos que toda enfermidade, dentro da pauta de provações a que o indivíduo está sujeito, representa processo de purificação do espírito.

Sabemos também que, quase sempre, antes de manifestar no corpo físico, as células presentes no perispírito já se encontram enfermas. E a doença poderá ou não se manifestar no corpo físico, dependendo de nossa conduta, da necessidade passarmos por esta ou aquela provação.

Nem sempre cortar o corpo físico, poderá resolver a questão, se alma apresenta as condicionantes para manifestação da doença. Esta poderá expressar-se, se for necessário a prova, como mecanismo de drenagem do períspírito, em outro órgão, diferente daquele que foi parcialmente cortado.

Embora seja difícil compreendermos, mas, Emmanuel no diz, no livro Pão Nosso, Mensagem nº 100: “Nem sempre o Socorro de Cima surge em forma de manjar celeste.”

Ou seja, aquilo que para nós apresenta-se como desgraça ou infelicidade ou doença, pode representar recurso divino a nosso favor, em função de nossa visão estreita e materialista.

É nosso dever buscar sempre a cura dos males que nós mesmos provocamos, nesta ou em vidas passadas, lembrando porém que jamais conseguiremos fugir aos resgates necessários ao nosso aperfeiçoamento.

Abraços

Eurípedes Mariano.

  

 maravilhosa postagem!! A nossa passagem por este plano, é constituída por valores, e consequências criadas por nós mesmo.Que nunca estamos felizes com o que  temes.E esquecemos de agradecer ao pai que nos dá oportunidade para sermos felizes..um abraço!!

Obrigada muito bom texto para ler e refletir, Vou guardá-lo na minha pasta 

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