Por que estudar O livro dos médiuns?

Simoni Privato Goidanich

Artigo publicado na Revista A senda (nov-dez 2019), da Federação Espírita do Estado do Espírito Santo

               1) A mediunidade faz parte da vida

               Médiuns somos todos, em maior ou em menor medida[1]. Inclusive as pessoas que não acreditam na existência dos Espíritos podem ser influenciadas por eles[2]. Estudar seriamente a mediunidade é, pois, de fundamental importância.

               É particularmente evidente a importância do estudo sério da mediunidade por parte dos adeptos do espiritismo, já que este é uma ciência prática que consiste nas relações que se pode estabelecer com os Espíritos e uma filosofia que compreende todas as consequências morais que dimanam dessas relações[3]. Mesmo que o espírita não possua faculdades mediúnicas que hajam produzido, até o momento, efeitos notórios ou ainda que ele não participe nem venha a participar de reuniões mediúnicas, é recomendável que estude a mediunidade a fim de que esteja preparado para lidar com ela em si mesmo, especialmente se alguma faculdade mediúnica vier a aflorar de maneira ostensiva, e nos demais, inclusive em situações inesperadas, dentro e fora do centro espírita. De fato, a mediunidade não se limita às reuniões mediúnicas: faz parte da vida.

               2) O necessário alicerce

               As obras fundamentais do espiritismo, indicadas no Catálogo racional das obras que podem servir para fundar uma biblioteca espírita, resultam dos sérios, prolongados e laboriosos estudos realizados por Allan Kardec, que compreenderam milhares de observações[4]. Na composição dessas obras, Allan Kardec contou com elevada assistência espiritual, mas sem qualquer sinal exterior de mediunidade.

               Ao invés de prejudicar, a ausência de mediunidade ostensiva em Allan Kardec foi altamente benéfica para a composição das obras fundamentais do espiritismo, conforme ele mesmo explicou: “Com uma mediunidade efetiva, eu somente teria escrito sob uma mesma influência. Teria sido levado a aceitar como verdadeiro apenas o que me tivesse sido comunicado, e isso talvez sem razão; ao passo que, em minha posição, convinha que eu tivesse liberdade absoluta para obter o que é bom onde quer que se encontrasse e de onde viesse. Portanto, tenho podido fazer uma seleção dos diversos ensinamentos, sem prevenção e com total imparcialidade. Tenho visto muito, estudado muito, observado muito, mas sempre com um olhar impassível, e nada mais ambiciono senão ver a experiência que tenho adquirido colocada a benefício de outros, e estou feliz de poder evitar para eles os escolhos inseparáveis de todo noviciado[5]. Sendo assim, em lugar de compor suas obras com parcialidade, sob uma mesma influência espiritual, Allan Kardec valeu-se de dois critérios: a lógica e o ensino geral e concordante dos Espíritos.

               Tendo em vista a elevada assistência espiritual, bem como a utilização dos critérios seguros da lógica e da generalidade e concordância no ensino dos Espíritos no processo de elaboração, as obras fundamentais do espiritismo, publicadas por Allan Kardec, constituem o necessário alicerce para a sólida formação doutrinária, inclusive no campo da mediunidade.

3) A diretriz segura

               Entre as obras fundamentais do espiritismo, destaca-se, em matéria de mediunidade, O livro dos médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores. Destina-se especialmente não apenas aos médiuns ostensivos, mas a todos que lidam com os fenômenos mediúnicos.

               Já na Introdução, Allan Kardec esclarece que a prática mediúnica está rodeada de muitas dificuldades e que nem sempre está livre de inconvenientes, o que somente um estudo sério e completo pode prevenir. Por conseguinte, o Mestre de Lyon ressalta que não é suficiente um manual prático sucinto para o estudo e a prática da mediunidade.

               O livro dos médiuns, que contém ensinamentos indispensáveis para evitar os escolhos na prática mediúnica, é a diretriz segura no campo da mediunidade. Tamanha é sua excelência que substituiu outra obra de Allan Kardec - a Instrução prática sobre as manifestações espíritas, um livro sério, mas que não trata, de maneira completa, das dificuldades na prática mediúnica[6].

4) Não basta receber a comunicação mediúnica: é indispensável analisá-la

               O estudo de O livro dos médiuns esclarece que não é suficiente a facilidade na recepção das comunicações mediúnicas, o que pode ser obtido em pouco tempo, apenas pelo hábito. É necessário adquirir experiência, que resulta do estudo sério das dificuldades que se apresentam na prática mediúnica. A experiência confere ao médium o tato necessário para apreciar a natureza dos Espíritos que se manifestam, avaliar as qualidades boas ou más deles mediante os indícios mais sutis e descobrir o engano dos Espíritos mistificadores que se cobrem com as aparências da verdade. Sem a experiência, todas as demais qualidades do médium perdem sua verdadeira utilidade[7].

               Não basta receber a comunicação mediúnica: é necessário, portanto, analisá-la. As obras de Allan Kardec, especialmente O livro dos médiuns, contêm o conhecimento imprescindível para analisar as comunicações mediúnicas segundo os critérios espíritas. De fato, entre outros temas de máxima importância, O livro dos médiuns trata, com maestria, da identidade dos Espíritos que se comunicam, das mistificações, das obsessões, da influência do médium e do meio, do charlatanismo e das contradições.

               A análise das comunicações mediúnicas é necessária também no tocante à divulgação do espiritismo. Nem tudo o que comunicam os Espíritos deveria ser publicado. Existem, entre os Espíritos, diversos graus de saber e de ignorância, de moralidade e de imoralidade. Há comunicações mediúnicas que produzem impressões equivocadas sobre o espiritismo; inclusive existem aquelas que podem induzir a erro as pessoas que não têm o necessário conhecimento doutrinário[8].

5) Mediunidade e progresso da humanidade

               Quanto mais nos dedicamos a assimilar os ensinamentos contidos em O livro dos médiuns, melhor compreendemos a fundamental importância do estudo sério da mediunidade, bem como o papel e a responsabilidade que todos temos, sejamos ou não médiuns ostensivos, como promotores do progresso espiritual não apenas em nós, mas também no meio em que vivemos. De fato, a mediunidade não é uma faculdade que deva servir para o aperfeiçoamento de apenas uma ou duas pessoas. Seu objetivo é maior: abrange toda a humanidade[9].

[1] KARDEC, Allan. Le livre des médiums, n. 159.

[2] KARDEC, Allan. Le livre des Esprits, questão 459.

[3] KARDEC, Allan. Qu-est-ce que le spiritisme? Preambule.

[4] KARDEC, Allan. Le livre des médiums, n. 34.

[5] KARDEC, Allan. Revue Spirite - Journal d´Études Psychologiques, nov. de 1861, Réunion générale des Spirites bordelais - Discours de M. Allan Kardec.

[6] KARDEC, Allan. Le livre des médiums, Introduction.

[7] KARDEC, Allan. Le livre des médiums, n. 192.

[8] KARDEC, Allan. Revue Spirite - Journal d´Études Psychologiques, nov. de 1859, Doit-on publier tout ce que disent les Esprits?

[9] KARDEC, Allan. Le livre des médiums, n. 226-5.

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Respostas a este tópico

Poderia me informar em obra de Kardec cita a mediunidade ostensiva?
Correção

Poderia me informar em que obra de Kardec cita a mediunidade ostensiva?

Uma excelente análise.

Excelente o artigo da culta Simoni Privato Goidanich. Porém, peço licença para acrescentar que, posteriormente, AK reconheceu ser médium intuitivo em nota ao artigo "Caracteres da Revelação Espírita", em face das provas muito evidentes de que as ideias lhe eram sugeridas pelos Espíritos, que também eram colaboradores invisíveis para que lhe chegassem os elementos necessários à elaboração de suas obras (Nota 4, RE SET/1867). Também era médium de efeitos físicos e, de forma incipiente, auditivo: 1 - Na noite de 24 de março de 1856, às 20h, estando sozinho em casa, AK começou a ouvir ruídos e pancadas, que continuaram com a chegada de sua esposa às 21h e perturbaram o casal ininterruptamente até a meia-noite, quando parou de escrever e foi deitar-se. (Instruções Práticas, 1858; LM, 1861: 2ª parte, cap. V, 86; OP, 2ª parte, cap. 3); 2 - No início de 1859, preparando a obra O que é o Espiritismo, foi perturbado por "uma vintena de Espíritos que murmuravam acima de sua cabeça", fazendo-o olhar "para todos os lados de onde provinha o ruído", supondo fossem "milhares de moscas". Depois, "abriu a janela para olhar se não seria o vento ou a chuva". Dois ou três Espíritos “sopravam o que ele escrevia e davam a impressão de ouvir a opinião dos outros; quanto a Kardec, acreditava piamente que as ideias eram suas, parecendo satisfeito com isso". AK disse que "o fato era absolutamente exato" (RE MAIO/1859: Cenas da vida privada espírita). 3 - O boletim da sessão de 30 de novembro de 1859 (RE DEZ/1859) registrou que, de certa feita, um Espírito ditou a um dos médiuns da SPEE “uma passagem escrita pelo Sr. Allan Kardec e que ele não havia ainda comunicado a ninguém”. Portanto, agira como médium do mesmo Espírito de acordo com as questões 173 a 173b do LE de 1857, e com a 459, do LE/1860.

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