REPÓRTER DE UM DIÁRIO FRANCÊS

 

 “O que não se fez! Que motivos não foram utilizados para sufocar a criança no berço! (...) Todos os raios da imprensa troaram contra nós...” * 

 Allan Kardec

 

Fui repórter de um diário francês de grande circulação em Paris. Trabalhei muito para conseguir o destaque que julgava merecer. Não poupei esforços, mesmo! Superava as expectativas do meu editor que via em mim uma fábrica de fazer notícias. E eu sabia fazer isso, dava conta de tudo.

Nunca gostei de movimentos populares. Sempre os achei inoportunos, extravagantes e a serviço de causa nenhuma, a maioria das vezes.

Certa feita fui chamado a acompanhar uma celeuma operária em Lion, na colina Croix-Rousse. Meu chefe  pediu-me que lá, ouvisse as partes, apurasse os fatos e voltasse a Paris para concluir a matéria.

Na verdade, não me predispus a ouvir lorotas de tecelões. Bisbilhotei, ouvi aqui alguma coisa, ali outra e sapequei um artigo espetacular desancando o movimento dos brutos. Primeira página, vendeu toda a tiragem. Meu chefe, diante do sucesso, não quis saber de que lado estava a razão, muito menos a verdade.

Assim foi com outros episódios. Meio fato virava fato inteiro. Quanto mais agitação, mais jornais vendidos. Meus textos causavam furor. Junto, vinham adulação e muitos francos. Mas houve um fato, ocorrido por volta de 1857, que deu um grande impulso em minha carreira na imprensa. Aparecia em Paris um movimento religioso que despertou desde logo, a atenção e interesse de muitas pessoas. Não se falava noutra coisa senão nas mesas que dançavam. Fenômenos bizarros desafiavam a racionalidade francesa e expunham ao ridículo até mesmo autoridades de notória respeitabilidade. As opiniões se dividiam, acirradamente. A grande maioria se divertindo muito com aquilo tudo. Sob a tutela de um líder, chegou-se a publicar um livro com a estranha doutrina, segundo os neófitos, escrito pelos espíritos.

Foi um tempo de material farto para os jornais. Eu escrevia muito contra o que julgava ser um pastiche religioso de mau gosto e muita fantasia. Insuflado por alguns religiosos dogmáticos e assustados, fiz uso das prerrogativas que tinha como jornalista e servi, sem muito refletir, ao poder instituído. Se não havia fatos, criava-os. Não tinha tempo a perder com sensatez, já que a sociedade francesa se deliciava com a novidade a que alguns queriam imputar seriedade.

Recebia convites para as chamadas sessões em casa de pessoas prestigiosas e de grande influência que queriam se divertir vendo os móveis falarem. Isso causava sensação e as rotativas não paravam. Cheguei, lembro-me bem, a usar vários pseudônimos para dar vazão ao meu furor contra as ideias que, no fundo, achava pueris, mas que cresciam rápidas ainda que se lhes combatesse, parece que se alimentando do estardalhaço que se fazia em torno delas.

Aquele período marcou muito a minha vida. Granjeei amigos que a meteórica fama jornalística me trouxe, e favorecimentos múltiplos, que barganhava com a falta de escrúpulos e textos servis.

Porém, certo dia, a brincadeira acabou para mim. Vazava um texto agressivo contra um oponente adepto da nova mania religiosa, quando senti faltarem-me as forças. Perdi os sentidos e não voltei mais.

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 Estou agora frente a um homem de fisionomia tranquila e séria. Fez-me ver e ouvir certas coisas em que me reconheci por inteiro. Diz respeito à minha vida em Paris e ao meu trabalho no jornal. Afirmou-me que excedi meus limites e direitos como pessoa e que por isso sofri tanto depois da morte, o que me constrange muito reviver agora, mentalmente. Sinto uma lassidão, como se tivesse hibernado... O homem calmo parece me aceitar como sou, fala brandamente sobre minha volta ao mundo para consertar o que fiz de errado. Se entendi bem o que me diz, os fenômenos que ridicularizei serão os meios compulsórios pelos quais buscarei a retificação. Minha tarefa será escrever o contrário de tudo quanto disse lá atrás, irresponsavelmente. Passarei por rigoroso e exaustivo preparo antes, aproveitando recursos que já conquistei. Não serei dono das idéias nem da própria mão. Serei médium, sofrerei perseguição, serei desacreditado... O bom homem continua falando. Sua voz quente e simpática vai se esvaindo, aos poucos... Acho que estou conformado, parece que não há outro jeito...Sinto uma lassidão no corpo...um torpor...

 

* Revista Espírita, junho de 1869, em “Os desertores”.

 

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Meus caros, o texto acima é capítulo do livro UM SORRISO COMO RESPOSTA, de Cláudio Bueno da Silva, editado pela Mythos. O livro passou desapercebido em seu lançamento, mas constitui preciosa e encantadora obra, com contos de profundidade e todos eles baseados em trechos de Kardec. Desejo sugerí-lo amplamente ao seu coração!

Orson Peter Carrara


 

Orson Peter Carrara (Matão/SP)

Escritor e orador espírita. Constultor Editorial residente em Matão/SP, Articulista da imprensa espírita, tem colaborado com diversos órgãos da imprensa espírita, entre revistas e jornais do país, além de boletins regionais.  Autor dos livros "Causa e Casa Espírita" "Espíritos - Quem são? O que fazem? Onde estão? Por que nos procuram?", seus textos caracterizam-se pela objetividade e linguagem acessível a qualquer leitor, estando disponibilizados em vários sites de divulgação espírita.

Seu site www.orsonpcarrara.com.br

e-mail: orsonpeter@yahoo.com.br

Blog: http://orsonpetercarrara.blogspot.com/

 

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