Rivalidade entre os espíritas: reflexões kardequianas – II (Pedro Camilo)

Rivalidade entre os espíritas: reflexões kardequianas – II

(Pedro Camilo)

 

 

Dando seguimento às nossas reflexões sobre as rivalidades que surpreendemos instaladas no Movimento Espírita, julgamos necessário prosseguir com Allan Kardec, em O livro dos médiuns, no capítulo que trata das “Sociedades Espíritas”, mais especificamente no item que analisa o problema da rivalidade entre as sociedades.

Diante do interesse geral que o texto anterior causou, recebi várias manifestações de confrades de todo país, com observações variadas, dentre elas uma que revelava certo incômodo: seria adequado falar-se em “rivalidade”? Isto não estaria, de certa forma, alimentando a animosidade entre os companheiros de ideal?

Bem, a essa ponderação responderei o seguinte: quem chamou de “rivalidade” não fui eu, foi o próprio Kardec. Fazendo uso de sua sensibilidade e de seu raro senso de observação, ele mesmo já percebia, em sua época, a tendência muito humana de se tomar os pontos discordantes como “cavalos de batalha”, utilizando-os para alimentar as disputas e oposições, gratuitas ou não. E a palavra “rivalidade” traduz, exatamente, essa ideia de oposição e disputa que encontramos no comportamento de pessoas em diversos contextos sociais... e no Movimento Espírita não é diferente! Portanto, não é falta de caridade ou estímulo à disputa o fato de identificarmos como “rivalidade” toda a série de desentendimentos e dissensões que vemos acontecer, mas tão somente “dar nomes aos bois”, para que palavras aparentemente amenas não venham, de algum modo, camuflar a realidade.

Voltando a Kardec, não podemos deixar de repetir: sua sensibilidade era profunda! Em seu tempo, o Movimento Espírita não gozava da mesma quantidade de Instituições com que conta hoje, muito menos com a complexidade das relações que se estabelecem, atualmente, nesses nichos. Contudo, as discordâncias já eram uma realidade, naqueles 4 (quatro) anos iniciais de movimento (lembremos que O livro dos médiuns foi publicado em janeiro de 1861), certamente prenunciando que as décadas vindouras não seriam diferentes.

Analisando as celeumas de então, Kardec identificava que:

 

[...] essas divergências, as mais das vezes, apenas versam sobre acessórios, não raro mesmo sobre simples palavras. Fora, portanto, pueril constituírem bando à parte alguns, por não pensarem todos do mesmo modo. Pior ainda do que isso seria o se tornarem ciosos uns dos outros os diferentes grupos ou associações da mesma cidade. (OLM, item 329, 1º parágrafo)

 

Pontua o mestre francês que, quase sempre, nossas divergências tem base em questões acessórias. Como tais devemos entender aquelas que não guardam relação com as raízes da doutrina, que são seus princípios básicos, mas com aspectos outros que compõem o mosaico de assuntos relacionados a esse conjunto principiológico. Exemplificando: podemos estar de acordo, todos, quanto à existência de Deus, à reencarnação, à mediunidade e outros pontos fundamentais do conhecimento espírita, exatamente como propostos nas obras de Kardec, embora divergindo quanto a informações sobre a existência de determinado aspecto do mundo espiritual e sua compreensão, que é algo acessório e não compromete, por si só, o núcleo básico de referência.

Essas divergências, como assevera Kardec, “não raro [existem] mesmo sobre simples palavras”! Às vezes, nosso preciosismo nos leva a esquecer que as palavras existem para nos servir, não o contrário! Devemos empregá-las para nosso entendimento, e não como se tivessem existência e vontade próprias.

Na pergunta 153, item “a”, de O livro dos espíritos, ao se debater o sentido em que se deveria tomar a expressão “vida eterna”, os espíritos são questionados sobre se “não seria mais exato chamar vida eterna à dos Espíritos puros, dos que, tendo atingido a perfeição, não estão sujeitos a sofrer mais prova alguma”. E respondem:

 

Essa é antes a felicidade eterna. Mas isto constitui uma questão de palavras. Chamai as coisas como quiserdes, contanto que vos entendais. (OLE, item 153, “a”) (Grifei)

                                                                               

O importante, pois, é que nos entendamos! Naturalmente que não podemos desconsiderar que o Espiritismo, como ciência, deve ter um cuidado terminológico e que nós, por nossa vez, devemos zelar pela devida adequação dos termos e pela sua precisão. Entretanto, uma confusão de termos ou, mesmo, a opção por palavras diferentes, DESDE QUE A COMPREENSÃO, O SENTIDO E O ALCANCE DO QUE SE DENOMINA PERMANEÇAM OS MESMOS, não deve justificar nossa atitude “pueril”, ou seja, infantil – o termo é de Kardec! – de criarmos trincheiras e nos hostilizarmos.

Allan Kardec lança uma “pá de cal” na questão quando, na sequência das ponderações, aduz de forma cirúrgica:

 

Compreende-se o ciúme entre pessoas que fazem concorrência umas às outras e podem ocasionar recíprocos prejuízos materiais. Não havendo, porém, especulação, o ciúme só traduz mesquinha rivalidade de amor-próprio. (OLM, item 329, 1º parágrafo)

 

Será que há entre nós, os espíritas, qualquer tipo de concorrência, ou queremos todos “concorrer” para a divulgação e a propaganda da Doutrina que professamos e que baliza nossas existências? Qual o motivo, então, da existência de tantos “ciúmes” entre nós, de tanta rivalidade? A resposta é de Kardec: “mesquinha rivalidade de amor-próprio”!

Lutemos, pois, contra a nossa pequenez – e aprendamos a respeitar os outros, apesar das divergências!

Leia também:

Rivalidade entre os Espíritas: Reflexões Kardequianas – I

Autor:

Pedro Camilo (Salvador/BA)

Advogado. Mestre em Direito Público pela Universidade Federal da Bahia. Professor Auxiliar de Direito Penal e Processual Penal da Universidade do Estado do Bahia. Escritor e expositor espírita. Trabalhador do Núcleo Espírita Telles de Menezes, de Salvador, Bahia.
Escreveu os livros "Yvonne Pereira: uma heroína silenciosa", "Devassando a mediunidade" e "Mediunidade: para entender e refletir"; organizou o livro "Pelos caminhso da mediunidade serena"; mediunicamente, o Espírito Bento José escreveu, por seu intermédio, "Mente Aberta.

 

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Respostas a este tópico

 O dia em que o trabalho for a nossa arma, a caridade nosso escudo e o amor o nosso lema.... a doutrina espírita avançará as fronteiras da sombra na busca dos irmãos mais endurecidos em seus orações. Quando Jesus for o único presidente das casas espíritas e o evangelho for o único estatuto, presenciaremos o trabalho em equipe e a efetividade do amor incondicional... utopia!!!! Não, fé!!!

Resumiu tudo, de forma brilhante e objetiva... Abraços fraternos, cara Márcia Rejane!

Marcia Rejane Faccin Corrêa disse:

 O dia em que o trabalho for a nossa arma, a caridade nosso escudo e o amor o nosso lema.... a doutrina espírita avançará as fronteiras da sombra na busca dos irmãos mais endurecidos em seus orações. Quando Jesus for o único presidente das casas espíritas e o evangelho for o único estatuto, presenciaremos o trabalho em equipe e a efetividade do amor incondicional... utopia!!!! Não, fé!!!

Brilhante como sempre em suas profundas, oportunas e 'atuais' reflexões... cuidemos da nossa auto crítica em busca da total transparência de nosso comportamento (atuação) junto à Doutrina que abraçamos! Abraços fraternos ao caro Pedro Camilo e a todos os nossos companheiros e irmãos de Rede Amigo Espírita!


Nossa! Em poucas palavras voce sintetisou tudo !!!!!Gostei muito
Marcia Rejane Faccin Corrêa disse:

 O dia em que o trabalho for a nossa arma, a caridade nosso escudo e o amor o nosso lema.... a doutrina espírita avançará as fronteiras da sombra na busca dos irmãos mais endurecidos em seus orações. Quando Jesus for o único presidente das casas espíritas e o evangelho for o único estatuto, presenciaremos o trabalho em equipe e a efetividade do amor incondicional... utopia!!!! Não, fé!!!

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