(continuação do estudo da Série "Paulo Mulher e Homem em Cristo")

 

7 - O silêncio da mulher nas assembléias (1 Timóteo, 2 : 8 a 15)


8 Quero, pois, que os homens orem em todo o lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda.

9 ¶ Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos,

10 mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras.

11 A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição.

12 Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.

13 Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva.

14 E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.

15 Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, na caridade e na santificação.

Este é um texto de difícil interpretação. Aqui os estudiosos têm tido grande dificuldade para explicar para a mulher dos tempos atuais o que Paulo queria dizer nesta carta.

Para compreendê-lo é preciso analisar com cautela.

A epístola foi escrita a Timóteo, porém para que fosse lida por toda a comunidade. Paulo estava preocupado com certas pessoas que ensinavam aos cristãos de Éfeso uma falsa doutrina, assim alertava o discípulo a quem encarregava de admoestar estes falsos mestres. (Cf. Timóteo, 1: 3 a 7)

Éfeso era uma cidade da Ásia Menor de grande destaque. Em linguagem moderna poderíamos dizer que tinha uma ótima logística por situar-se na junção de estradas comerciais e ter como destaque o templo de Diana, que os gregos identificavam como a deusa Ártemis.

Nela moravam muitos judeus que tinham ali uma sinagoga. A igreja cristã, segundo Emmanuel (Paulo e Estevão, pág. 652), se compunha de elementos judaicos e gentios, e era comum nas reuniões um grande número de polêmicas estéreis (Idem, pág. 539).

Éfeso foi também muito importante para o movimento cristão do primeiro século de nossa era devido a Maria, mãe de Jesus, ter ali vivido seus últimos dias, em trabalho de atendimento à comunidade carente desta cidade, enquanto João Evangelista trabalhava na área da evangelização.

Assim temos dois pontos contrastantes que fazem de Éfeso um tema importante para o nosso estudo com muitas oportunidades de edificação. O templo de Diana e o culto pagão de um lado, e o trabalho de Maria e João em favor do Cristo de outro.

Feita esta breve introdução podemos agora comentar mais propriamente o texto em questão, porém para isso vamos nos apoiar na tradução já citada de Norbert Baumert.

  1. Quero, pois, que os homens em cada lugar tenham mãos puras,sem fervor e sem dúvida;
  2. da mesma forma (quero eu)1 que mulheres em postura nobre (obediente) se enfeitem (se tornem elegantes, se produzam) com sensibiidade e clareza, não com cabelo trançado, ouro, pérolas ou ainda vestimentas caras,

10.  mas – o que cai bem a mulheres que tornaram a piedade algo próprio de sua vida – com boas ações (por meio do agir corretamente).

11.  Uma mulher pode em plena (toda) tranqüilidade aprender subordinação;

12.  mas eu não permito a uma mulher ensinar, nem dominar acima de um homem (agir de forma autônoma), mas viver em paz (em sua situação social de paz com o homem).

13.  Adão foi constituído (formado) primeiro, depois Eva.

14.  E Adão não foi enganado; mas a mulher, depois que ele se deixou iludir, caiu em transgressão,

15.  (mas) deverá receber salvação por meio do parir um filho (o nascimento de um filho). Se elas permanecerem em confiança (fé) e amor e santificação com (sob) bom senso.

A polêmica já se inicia no versículo 8, pois enquanto para os homens há a recomendação em apenas um versículo, para as mulheres há uma longa pregação moral. (Baumert, 203).

O Versículo nono não é de difícil compreensão, porém já vamos notar algumas diferenças quando analisamos as traduções:

9 Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos… (Almeida)

9 da mesma forma (quero eu) que mulheres em postura nobre (obediente) se enfeitem (se tornem elegantes, se produzam) com sensibiidade e clareza, não com cabelo trançado, ouro, pérolas ou ainda vestimentas caras… (Baumert)

O que Paulo está pedindo aqui é um cuidado das mulheres quanto à vestimenta para que elas não venham a chamar a atenção por aspectos exteriores no que diz respeito à vaidade.

Devido à experiência no paganismo algumas mulheres deveriam estar se vestindo incorretamente com trajes muito enfeitados e até sensuais, outras usando da vestimenta para mostrar sua posição social superior.

O apóstolo sabia que a prática cristã depende de postura íntima e não de formalismos e exterioridades, esta foi sempre a sua luta, divulgar a necessária transformação íntima daquele que aceita o Cristo por Senhor.

Aqui, segundo a leitura de Baumert, Paulo pede às mulheres uma postura nobre, que dentro do contexto da época passava também por obediência, e que se enfeitassem com sensibilidade e clareza, e não, tendo por destaque as vestimentas caras.

Nos dias de hoje o cuidado deve ser o mesmo. No serviço cristão não pode haver a distinção entre rico ou pobre, entre doutores ou leigos; o que deve caracterizar o servidor do Evangelho é sua autoiluminação, e sua capacidade de servir. As vestimentas do Cristão devem ser simples, sem chamar muito a atenção, principalmente no que diz respeito à sensualidade, cuidado este que devem ter principalmente as mulheres, porém este chamamento de atenção vale tanto para os homens quanto para elas.

No versículo 10 Paulo vem justamente confirmar a nossa interpretação, o que caracteriza o seguidor de Jesus é o sentimento renovado conforme expressa: tornaram a piedade algo próprio de sua vida, e amplia, com boas ações. Ou seja, é a atitude iluminada pela fé que transforma o ser em uma criatura melhor. Não é simplesmente fazer o bem, mas tornar-se bom, piedoso, generoso, fraterno. E mais uma vez dizemos, não é só para a mulher o alerta, mas para ambos os sexos, pois tanto a mulher como o homem em Cristo devem ser Nova Criatura.

No versículo 11 iniciam as dificuldades.

Pela tradução comum temos:

A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição.

Mesmo se analisarmos do ponto de vista literal este versículo já é um avanço para época, pois conforme vimos no início de nossas anotações, a presença de uma mulher em reuniões de estudo era uma ofensa à sua dignidade, sendo que alguns mestres achavam ser preferível queimar a Torá, que era o que havia de mais importante para o judeu, do que ensiná-la a uma mulher. E Paulo, ao contrário era a favor de que a ela aprendesse.

Quanto a aprender em silêncio é preciso examinar com um pouco mais de cautela para saber se era esta mesma a idéia do ex-rabino, no sentido machista que comumente entendemos.

A palavra grega que foi traduzida por silêncio é hesuchia. Hesuchia pode ser silencio, mas também significa tranquilidade, quietude. É nesse sentido que Baumert entende a fala de Paulo, e parece ser o mais correto, pois a mulher normalmente já ficava em silêncio nas reuniões, não sendo preciso que Paulo fizesse esta recomendação.

Portanto, aprender com tranquilidade sugere um recepção da lição em harmonia íntima, não se revoltando com a atitude exigida da mulher, de subordinação.

A lição é para todos nós nos dias de hoje de grande significação, visto que todo o Evangelho tende a nos ensinar um novo comportamento fundamentado no desapego, na inobservância do interesse pessoal, na desvinculação de coisas, posições e pessoas; quando assim não procedemos com tranquilidade, a vida nos cobra com uma dose maior de sacrifício, que é quando nos rebelamos contrariamente ao que recomenda o apóstolo:

Estejamos em tranquilidade no aprendizado de subordinação.

Esse é o grande desafio, nos sujeitarmos ao que quer que seja, mesmo a Deus, no encaminhamento de Sua Magnânima Lei.

As dificuldades aprofundam ainda mais no versículo 12, porém, como iremos ver as conclusões são as mesmas.

Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.

Ou ainda:

mas eu não permito a uma mulher ensinar, nem dominar acima de um homem (agir de forma autônoma), mas viver em paz (em sua situação social de paz com o homem ).

Segundo este texto a mulher não pode ensinar, porém na prática há movimentos contrários a este dito, e apoiado pelo próprio Paulo.

Em Atos, 18: 26, Priscila, mulher de Áquila, ensina a Apolo, junto com seu marido, o caminho de Deus:

Ele começou a falar ousadamente na sinagoga. Quando o ouviram, Priscila e Áqüila, o levaram consigo e lhe declararam mais pontualmente o caminho de Deus.

Em Tito, 2: 3 e 4, Paulo diz que as mulheres idosas devem ensinar às mais jovens:

As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem, para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos...

Na primeira carta aos Coríntios, no cap. 11, texto que já comentamos, Paulo fala claramente na possibilidade da mulher falar profeticamente em voz alta, o que não deixa de ser uma forma de levar ensinamento:

Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada.

Há ainda como já vimos anteriormente mulheres que fundaram reuniões de estudo do Evangelho em suas casas, o que pressupõe uma participação ativa destas nas reuniões. Estariam ensinando?

Portanto, concluímos que não havia uma proibição destas ensinarem, mas sim de ministrar ensinamento em determinadas situações.

Segundo Baumert (pág. 225), havia um sentimento geral dentro do âmbito cultural helenístico, e mesmo no contexto judaico do cristianismo inicial de que as mulheres não podiam ensinar em uma reunião pública, isto era uma realidade e devia ser respeitada. Além do mais, como informa este mesmo autor, e que nós também já citamos neste nosso texto, se a mulher não podia nem aprender a Torá, como ela ia poder ensinar?

Deste modo, ao analisarmos um texto de Paulo devemos levar tudo isso em consideração.

Parece-nos que o que Paulo orientava é para que a mulher não afrontasse em público a autoridade de seu marido. Lembremos que neste tempo o homem era o representante legal de sua esposa e de sua família, era o senhor (kyrios) da mulher. Portanto era simplesmente uma questão de respeitar os papéis de cada um, que são diferentes por se tratarem de seres distintos.

O próprio Livro dos Espíritos, dezenove séculos depois define com clareza:

Assim sendo, uma legislação, para ser perfeitamente justa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher?

Dos direitos, sim; das funções, não. Preciso é que cada um esteja no lugar que lhe compete…”2

Portanto, não é machismo, mas um respeito à ordem social vigente, hoje não é mais assim, se fosse na atualidade Paulo falaria de outro modo.

Desta forma podem dizer alguns, então o ensinamento de Paulo nesta carta está ultrapassado, pois os tempos evoluíram. É aí que entra a importância de compreender o que significa a letra mata e o espírito vivifica, é preciso tirar o espírito da letra.

Qualquer um de nós está sob autoridade. Seja do marido, da mulher, do pai, da mãe, do chefe, do governo, ou numa questão mais profunda, do próprio destino como conseqüência da lei de causa e efeito. Mesmo os que têm autoridade sobre nós, estão sob autoridade de alguém ou de alguma situação.

Em última instância quem dá esta autoridade é Deus, sendo assim, querer ensinar ou dominar (no sentido de revoltando querer inverter os papéis) quem está de posse de autoridade maior é ir contrário ao próprio Deus que assim delegou que seja.

Destarte, estar em silêncio, ou viver em paz como colocam alguns tradutores é assimilar a ordem que vige no Universo, ajustando-se à vontade de Deus compreendendo-a, sabendo que Ele é o esposo a quem devemos sujeição

Conforme orienta-nos o versículo anterior, com tranquilidade aprendamos subordinação.

E isto vale tanto para a mulher quanto para o homem renovado em Cristo.

(Continua...)

 

1 Nestas traduções citada de Baumert, as palavras entre parênteses são para auxiliar na compreensão do texto de acordo com o contexto, podendo o mesmo ser compreendido sem elas.

2 Questão 822, A

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Respostas a este tópico

Efectivamente assim é. Os tempos idos eram diferentes na cultura,nos hábitos e nos comportamentos... hoje a mulher é fundamental no equilíbrio duma sociedade, também de uma comunidade religiosa ou outra.... vemos muito mais mulheres nos templos do que homens. Têm mais astúcia(no bom sentido), mais sensibilidade, mais capacidade, mais dedicação e também muito melhor capacidade de argumentação.Entende mais fácilmente um estudo, uma mensagem, enfim tem mais predicados... ora, nos tempos que se seguem, não se pode tolher a evolução feminina.É-nos imprescindível a sua cooperação.O seu precioso trabalho seja lá onde for. Pessoalmente tive algumas mulheres-chefe nas minhas diversas profissões e, com elas aprendi melhor, suavizei(através delas) as minhas posturas e trabalhos...No evangelho, isso também aconteceu... não tem logica alguma certas Comunidades(Igrejas) impediram consagação de mulheres - a era ante-medieval já não tem razão de existir, porquê o medo??? Jesus honrou uma mulher aparecendo-lhe em primeiro lugar...
Muito interessante este estudo. Acho que só vive em paz de verdade quem silenciosamente aceita profundamente a submissão a LEI, então é que realmente se engrandece, se eleva diante de Deus e de pessoas sensiveis a esta postura interior dos seus semelhantes, quer sejam homens ou mulheres.

Aí, e no Antigo Testamento,  está a explicação de porq existem tantos preconceitos absurdos sobre a mulher.

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