4 - Paulo: citações sobre sua personalidade, caráter e temperamento

Tendo sido visto já dois aspectos importantes para o trabalho de nosso tema, quais sejam, a situação da mulher na sociedade judaica ao tempo de Paulo, e a influência do idioma e de suas traduções na formação dos textos e da compreensão que temos dos mesmos, resta-nos agora apontarmos para outras questões. Teria Paulo em sua personalidade, ou em seu temperamento, ou ainda em seu caráter, características que poderiam justificar um comportamento machista? Como descobrir isso?

Paulo é sem dúvida o personagem mais conhecido do Novo Testamento; temos o livro Atos dos Apóstolos e todas as suas epístolas (quase a metade do todo Novo Testamento) como material de pesquisa. Além disso, nós espíritas, temos o privilégio da obra Paulo e Estevão de Emmanuel /Chico Xavier, que nos traz os bastidores da história da vida do apóstolo tão bem contada por Lucas no livro evangélico já citado.

Então, mãos à obra, analisemos alguns textos destas obras imprescindíveis para conhecermos um pouco mais daquele que Jesus tinha por vaso escolhido.

Jovialíssimo, Saulo contou ao amigo que, de fato, se enamorara de uma jovem da sua raça, que aliava os dotes de peregrina beleza aos mais elevados tesouros do coração. Seu culto ao lar constituía um dos mais santificados atributos femininos. ( Saulo fala ao amigo Sadoc sobre Abigail.1)

A princípio este texto nada teria a acrescentar no estudo da personalidade de Paulo, porém é bom notar aqui a sua sensibilidade (mesmo quando ainda Saulo), pois só quem tem esta virtude percebe certos dotes em uma mulher como tesouros do coração ou santificados atributos femininos. Saulo valoriza o lar e a família, isto é caracaterística de Espíritos que já atingiram um certo padrão evolutivo.

Acolhido generosamente em sua casa, agora farta e feliz, ali conhecera na jovem Abigail um terno coração de menina, dona dos mais belos predicados morais que pudessem exornar uma filha da sua raça. Era, de fato, o seu ideal de moço: inteligente, versada na Lei e, sobretudo, dócil e carinhosa. (Ainda em conversa com Sadoc, sobre Abigail.2)

Mesma sensibilidade citada no comentário anterior. Preocupação com os predicados morais daquela que lhe seria esposa. E aqui um item importantíssimo para compreender seu pensamento sobre a mulher. Saulo tinha por ideal de mulher uma que fosse inteligente e, versada na lei.

Para uma época em que a mulher não podia estudar, ele tinha por ideal uma que era conhecedora e estudiosa da Torá. Como conjugar isto com a interpretação usual da carta em que ele fala que a mulher deveria silenciar e que não era permitido a elas falarem em uma reunião da comunidade? (1 Coríntios, 14: 34)

Aqui falaríamos como Kardec na questão 59 de O Livro dos Espíritos:

Dever-se-á daí concluir que a Bíblia é um erro? Não; a conclusão a tirar-se é que os homens se equivocaram ao interpretá-la.”

Temos ainda sobre este assunto de lembrar que Saulo foi educado por uma mãe que lia para ele textos da Torá (Cf. Paulo e Estevão, pág. 372). Ou seja, ele tinha uma lembrança materna forte, onde esta figura tão importante para a formação de um filho, tinha também o hábito de estudo dos textos sagrados.

Quem tem uma lembrança assim de uma mãe, e tem isso por importante, como ele mostrava ser, pode ter por ideal uma mulher que não participa dos momentos mais importantes de uma família?

Desde criança, com a sadia educação doméstica, guardava puros os primeiros impulsos do coração, sem jamais contaminá-los na esteira dos prazeres fáceis ou do fogo das paixões violentas, que soem deixar na alma o carvão das dores sem esperanças.

...tivera o heroísmo sagrado de sobrepor as disposições da Lei às próprias tendências naturais. Sua concepção de serviço a Deus não admitia concessões a si mesmo. A seu ver, todo homem devia conservar-se indene de contactos inferiores com o mundo, até que atingisse o tálamo nupcial. O lar constituído haveria de ser um tabernáculo das bênçãos eternas; os filhos, as primícias do altar do Maior Amor, consagrado ao Senhor Supremo.

A vida do lar é a vida de Deus.

(Em conversa com Abigail na casa de Zacarias)3

Esta conversa com Abigail mostra-nos um Saulo altamente romântico. Tinha ele tanta consideração pela mulher que se guardava sexualmente para sua eleita, mesmo antes de conhecê-la. Em nosso português claro e atual, Saulo era casto.

Tinha o lar e a família como instituição sagrada, sabia o quão esta era importante para a formação do Ser que devia caminhar consciente para Deus.

Em Paulo vamos ver que seu objetivo maior era fazer com que Jesus triunfasse dos corações dos homens, para isso a família tinha importância fundamental em sua feição educativa e disciplinadora.

Como em seu tempo tanto nos altos postos de Roma, quanto entre os pagãos gregos e outros a família estava degenerando-se, justifica-se de forma clara a dureza de alguns textos de Paulo em relação ao comportamento principalmente da mulher por ser esta a primeira educadora e a principal responsável pela formação moral da família.

Não era ele um homem excessivamente sentimental, dado às efusões dos carinhos que passam sem maior significação

Aqueles meses de convívio, quase diário, davam-lhe a conhecer o seu temperamento indômito e inquieto, a par de um coração eminentemente generoso, onde uma fonte de ignorada ternura se retraía em abismais profundezas. (Pensamento de Abigail sobre Saulo4)

Esta é uma opinião que deve ser levada em conta, pois é a opinião de Abigail que além de ser a noiva do futuro apóstolo era um espírito de alta sensibilidade espiritual. Segundo ela Saulo era generoso e terno. Em suas futuras epístolas vamos ver o quanto era afetuoso. Seriam estas caracaterísticas de um homem machista e acusado de incentivador de um comportamento misógino?

Mulheres na cerimônia?5

A irmã de Saulo pergunta sobre a presença de Abigail na cerimônia do martírio de Estevão, o que era proibido, pois não era permitido a uma mulher estar em determinadas partes do templo.

e ainda que isso constitua resolução de última hora, a critério dos sacerdotes, a medida não poderá atingir decisão pessoal de minha parte e eu desejo que Abigail participe do meu primeiro triunfo na defesa dos nossos princípios soberanos.6

Saulo fere aqui uma tradição e um regulamento mesmo, ao querer que uma mulher participe de uma cerimônia no templo. Demonstra o quanto era o seu desejo a participação de Abigail na cerimônia de Estevão, o que era para ele o seu primeiro triunfo. Vemos aqui claramente que ele não era contrário à participação da mulher nos sucessos do noivo ou marido, ou mesmo nas cerimônias religiosas.

Mas, diariamente, à noite, se reuniam, na casa singela onde funcionava a célula do “Caminho”, grandes grupos de pedreiros, de soldados paupérrimos, de lavradores pobres, ansiosos todos pela mensagem de um mundo melhor. As mulheres de condição humilde compareciam, igualmente, em grande número. (Sobre as reuniões em Antioquia.)7

Já notamos aqui - nas reuniões da comunidade cristã de Antioquia - mulheres estudando o Evangelho, o que não era comum àquele tempo.

Ali se reuniam, à noite, às ocultas, como se a verdadeira igreja de Jerusalém houvesse transferido sua sede para um reduzido círculo familiar. Observando as assembléias íntimas do santuário doméstico, o ex-rabino recordou a primeira reunião de Damasco. Tudo era afabilidade, carinho, acolhimento. A mãe de João Marcos era uma das discípulas mais desassombradas e generosas. (Em Jerusalém, culto na casa de Maria Marcos, mãe de João Marcos.)8

Maria Marcos, mãe de João Marcos era uma das discípulas (o que quer dizer que haviam outras) mais participativas, ou seja, mesmo na igreja em Jerusalém onde o judaísmo era mais tradicional e influenciava o movimento de Jesus, havia participação dinâmica de mulheres.

Fundação da igreja em Listra.

Lóide e a filha estavam radiantes. A cura do aleijado conferia aos mensageiros da Boa Nova singular situação de evidência. Paulo valeu-se da oportunidade para fundar o primeiro núcleo do Cristianismo na pequena cidade. As providências iniciais foram tomadas na residência da generosa viúva, que pôs à disposição dos missionários todos os recursos ao seu alcance9.

Temos aqui a participação de mulheres na fundação de reuniões para estudos do Evangelho. Líderes de movimento?

Fundação da igreja de Filipes

Enxugavam discretamente as lágrimas que lhes afluiam ao rosto, ao receberem notícias do Mestre, e uma delas, chamada Lídia, viúva digna e generosa, aproximou-se dos missionários e, confessando-se convertida ao Salvador esperado, oferecia-lhes a própria casa para fundarem a nova igreja.10

Mais uma vez uma igreja fundada na casa de uma mulher (Cf. Atos, 16:14)

Também através de suas epístolas vamos poder notar o carinho, o respeito e a consideração que tinha por muitas mulheres que eram, conforme podemos notar, suas colaboradoras na disseminação do Evangelho

Em Romanos capítulo 16 temos:

Recomendo-vos, pois, Febe, nossa irmã, a qual serve na igreja que está em Cencréia. (Romanos, 16: 1)

Febe era grande colaboradora na igreja em Cencréia conforme podemos notar pelas próprias palavras do apóstolo. Era mais uma mulher que participava ativamente no movimento cristão junto de Paulo.

Através de Emmanuel (Op. Cit., pág. 552) ficamos sabendo que foi ela a portadora da Epístola aos Romanos, que Paulo escrevera na cidade de Corinto.

Paulo sabia por revelação do próprio Cristo sobre a importância destas cartas para o movimento que se iniciava e para a cristandade de todas as épocas; sabedor que era ainda das dificuldades de transporte, e outros, será que ele encarregaria tal encomenda a quem não fosse absolutamente de confiança?

Portanto, fica mais uma vez confirmada a participação ativa de mulheres no movimento, e também que elas assumiam tarefas de grande relevância.

Saudai a Priscila e a Áqüila, meus cooperadores em Cristo Jesus (Romanos, 16: 3)

Priscila e Áquila eram amigos e colaboradores fiéis de Paulo. Priscila ajudava não só na divulgação da Boa Nova, como era também companheira de trabalho como tecelã. É mais uma vez a prova de mulheres participantes. Havia uma reunião também na casa deles conforme depreendemos de Romanos, 16: 5.

Saudai a Andrônico e a Júnia, meus parentes e meus companheiros na prisão, os quais se distinguiram entre os apóstolos e que foram antes de mim em Cristo. (Romanos, 16: 7)

Este é um texto interessante visto que apóstolo significa enviado e no Novo Testamento é normalmente usado para se referir aos doze primeiros discípulos de Jesus, a Matias que substituiu Judas, ou ao próprio Paulo.

Aqui Paulo dá este título a Andrônico e a Junia que era uma mulher, ou seja, uma colaboradora acima da média. O texto chocou tanto alguns estudiosos que muitos chegaram a negar esta possibilidade, sendo que alguns tradutores, e de conceituadas traduções, chegaram a propor que o nome era Júnias, um nome masculino. Porém, como informa-nos Bart D. Ehrman em O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? a crítica textual está muito avançada e consegue hoje perceber estas alterações textuais; além disso, comenta o mesmo autor, que enquanto Junia (no feminino) era um nome comum à época, não há indício no mundo antigo de Júnias como nome masculino.11

Outros versículos poderiam ser citados para mostrar a participação de mulheres como colaboradoras ativas de Paulo, entre eles, Colossenses, 4: 15 em que cita uma igreja na casa de Ninfa, uma outra cooperadora. Porém para não nos tornarmos mais cansativos com citações, achamos que estas já bastam para provar que havia participação ativa de mulheres no cristianismo do primeiro século, principalmente como colaboradoras de Paulo, o que inviabiliza a leitura deste como um judeu machista como é comentado por muitos, inclusive nos meios cristãos atuais.

(Continua...)

 

1 Paulo e Estevão, pág. 85 e 86.

2 Ibidem, pág. 86

3 Paulo e Estevão, pág. 99 e 100

4 Ibidem, pág. 94

5 Ibidem, pág. 182

6 Idem

7 Paulo e Estevão, pág. 389

8 Paulo e Estevão, pág. 398

9 Ibidem, pág. 458

10 Ibidem, pág. 508

11 Para maiores informações sugerimos o livro citado, pag. 193ss

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Respostas a este tópico

Brilhante texto...

uma singela e muito bem embasada e fundamentada aula sobre este que foi um exemplo de verdadeiro convertido aos ensinamentos do Mestre Jesus ... Abraços fraternos!

Ola!!

muito interessante sua reflexão e me fez pensar como, ainda, nos dias de hoje vivemos em uma sociedade machista e como este comportamento determina tudo que lemos, ouvimos e estudamos. Precisa se ter muito  cuidado ao dizer que um personagem, seja ele um apostolo um qualquer outro da historia, pois tudo que sabemos são através de textos escritos por outros homens que desejam que este personagem seja machista ou preconceituso como quem escreveu sobre ele. Infelismente muito se tem anunciado sobre a igualdade entre homens e mulheres na vida moderna, mas na pratica isso não ocorre, creio que as mulheres tem um grande poder nas mãos, pois como vc mesmo disse são elas as educadoras dentro das familias mas elas não se percebem disso e sem entendimento ou até mesmo sem conhecimento cometem os mesmos erros que suas mães e avós educam seus filhos para perpetuarem este comportamento machista e dominador no sexo masculino. Penso que Jesus e seus apostos foram os primeiros a trabalharem a igualdade entre homens e mulheres, mas as traduções distorceram os textos e o que temos hoje são textos escritos por homens que imprimiram seus conceitos de mundo e não os conceitos reais deixado por Jesus e seus apostolos.

Agradeço pela oportunidade de ler um texto tão claro e com tantas informações para as minhas reflexões.

Abraços.

Um bálsamo, p/ nós mulheres, sermos já reconhecidas, nesta época.Tivemos momentos de quase sermos "esquecidas",não julgando, pois posso ter sido uns desses homens da época, mas, agradeço por mais esse singelo aprendizado.Paz,Saúde e Luz! p/ todos! OBRIGADO JESUS E Irmãos-sempre amigo, Paulo de Tarso!!!!

Joniceia e familia

PARABÉNS,LOCALIZOU AS MULHERES X PAULO, DESCOBRIU MULHERES E SUA INFLUÊNCIA ÉPOCA DE

PAULO,ALTAMENTE INFLUENCIADO, PELO TORAH.

DEPOIS , ACHO QUE SÓ JESUS FAZER ENCONTRO MARIA MADALENA, ACOMPANHOU ATÉ MORRER.

E MARIA, SUA MÃE COMPANHEIRA. POSSO ESTAR FALANDO ERRADO.AMOR PAULO A ABIGAIL,FOI

LINDO.

OBRIGADO,PELO SEU TRABALHO.

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