(continuação do estudo da Série "Paulo Mulher e Homem em Cristo")

 

Paulo, Mulher e Homem em Cristo

8 – Conclusão

Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim…1

Nisto [em Cristo] não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.2

 

Poderíamos ainda analisar outros textos de Paulo sobre o assunto que nos propusemos comentar, porém isto talvez nos fizesse repetitivo e por demais cansativo.

O certo é que necessitamos fazer novas abordagens sobre as cartas do apóstolo considerando o idioma em que viveu, aquele em que escreveu, considerando as dificuldades de tradução. Em outras palavras, a cultura e a tradição de sua época de um lado, e a atemporalidade de sua mensagem de outra.

O próprio Pedro (apóstolo) já àquela época dizia que nas epístolas paulinas há pontos difíceis de entender. (Cf. 2 Pedro, 3: 16)

Dentre estes, sem querer nos estender muito há o texto de 1 Coríntios, 14: 33 a 36 em que Paulo claramente prega o silêncio da mulher nas reuniões da comunidade, o que de certa forma já comentamos. Todavia, devido a este texto do capítulo 14 da primeira carta aos coríntios ser um dos mais usados para a defesa da tese de um Paulo machista, não podemos, mesmo que singelamente, deixar de dizer algo a respeito.

Muitos estudiosos têm analisado uma possível contradição destes versículos de 1 Coríntios, 14 em relação ao texto já por nós comentado da mesma carta no capítulo 11, quando o autor da carta dizia da possibilidade da mulher orar e profetizar em voz alta nas reuniões. Seria possível Paulo se contradizer em tão pouco espaço de tempo, inclusive na mesma carta?

Esta possibilidade tem levado alguns exegetas a concluir que este texto do capítulo 14 talvez não tenha sido originalmente escrito por Paulo, mas que seja fruto de alteração textual devido a pouca competência de copistas, o que era comum nas transmissões das escrituras no período anterior à imprensa.

Para um estudo mais aprofundado desta possibilidade sugerimos aos interessados o livro já citado e constante em nossa bibliografia, de Bart D. Ehrman.3

Porém, sempre que falamos em alteração das escrituras sugerimos aos nossos leitores calma, e atenção ao que disse Emmanuel no livro O Consolador, quando nos informa que com relação ao Evangelho em qualquer tradução o estudioso de boa vontade pode extrair ensinamentos valiosos no campo autoeducativo, bastando para isso tirar da letra o espírito.4

Sendo assim, como compreender esta possível contradição?

Havia no movimento cristão do primeiro século vários tipos de reunião. Do mesmo modo, que hoje temos em nossas casas espíritas, reuniões públicas, reuniões de estudo (num grupo menor e com estudos mais aprofundados), reuniões mediúnicas, reuniões de diretoria, entre outras, havia entre os primeiros discípulos do Cristo, reuniões para culto da palavra de Deus, partir do pão, refeição comunitária, ensino, aconselhamento e decisão.5

Se em algumas delas apesar de não ser comum a mulher podia orar em voz alta e falar profeticamente, em outras, que alguns tradutores tratam por “reunião de congregação”, não era permitido à mulher tomar a palavra em público. Este era o caso da reunião citada neste capítulo 14 da primeira epístola aos coríntios, eram reuniões onde eram analisadas as profecias e onde eram tomadas certas decisões que só cabiam aos homens. Esta era a regra vigente na comunidade àquele tempo, é preciso que compreendamos que não podia ser diferente. Já demonstramos anteriormente, e pretendemos ainda voltar ao assunto nesta conclusão, que Paulo era mais avançado e não concordava com este pensamento legalista, porém ele mesmo sabia não ser possível romper com todas as tradições de uma hora para outra.

E aqui cabe uma reflexão para qualquer um de nós nos dias de hoje. Se em uma oportunidade, mesmo que imaginária, fôssemos convidados a fazer uma exposição evangélico doutrinária em qualquer templo ligado a outra denominação religiosa, como forma de fazer compreensível a filosofia que esposamos; não seria uma ótima oportunidade irmos? Porém aqui cabe uma pergunta, para isso fazermos não seria necessário levar em conta o respeito aos ritos e às regras que naquele ambiente são comumente praticados? Podemos não concordar, mas para nos fazermos ouvidos, seria bom abrirmos mão do que para eles também não passam de verdades exclusivas de nossa fé.

Deste modo, em Paulo também é preciso separar o que é fruto de época, da mensagem que ele absorveu vindo das esferas do Cristo, e que é por isso mesmo universal e atemporal. Sabendo que estas duas realidades estão intimamente conectadas e magistralmente tornadas públicas através do lindo jogo de palavras usadas pelo apóstolo, cabendo a qualquer estudioso em qualquer época da humanidade separar da letra o espírito.

*******

Para que possamos compreender a literatura bíblica de um modo geral é preciso levarmos em conta a seguinte realidade, o que nem sempre é feito pelos estudiosos, mesmo os ligados a alguma crença religiosa.

A Bíblia relata a história do homem de um modo geral em busca de sua “salvação”, o que modernamente denominamos redenção.

Toda história desde a queda do Éden, até a Nova Jerusalém do Apocalipse gira em torno disto.

O Antigo Testamento ou Bíblia hebraica, como preferem alguns, trata da formação do homem biológico, daquele que chamamos de homem do mundo. Há ali além de ensinos valiosos, toda uma norma de comportamento que diz respeito ao andamento deste na construção de um Ser ético que amadurece no bate e rebate da vida.

O Novo Testamento da Bíblia Cristã por sua vez, através da vinda do Messias predita nas escrituras hebraicas, nos traz o caminho para a construção do homem espiritual. Aqui cessa a preocupação com os valores exclusivamente transitórios e o que passa a ser levado em conta é o aperfeiçoamento do Espírito imortal.

A história do homem passa a ter então dois momentos distintos, antes e depois do Cristo. Aqui é preciso não confundir esta ideia com o movimento do calendário que também nos fala em antes e depois de Cristo, pois no primeiro caso o depois do Cristo significa o Cristo Vivo na intimidade da criatura, ou seja, a adesão profunda ao Amor do Novo Mandamento6, o que nos faz segundo a denominação paulina, uma Nova Criatura.

Este era o entendimento de Paulo e o estado em que tinha como objetivo, como meta, para toda a humanidade. Esta era a ideia que ele queria dar a compreender todos, simbolizados por judeu ou grego, servo ou livre, macho ou fêmea.

Quando ele diz, em Cristo, ou, no Senhor, ele está se referindo justamente a este que já atingiu este patamar de vivência.

A carta aos Gálatas, apesar de situar-se cronologicamente em meados de sua missão, já mostra-nos um Paulo amadurecido a ponto dele poder dizer que já não vive, ele Paulo, mas que Cristo é quem vive nele, o que a ele dá autoridade para afirmar que em Cristo não há judeu ou grego, servo ou livre, macho ou fêmea.

Esse é o pensamento básico de nossa conclusão; Paulo não prega a igualdade entre os diversos, mas a valorização da singularidade de cada um demonstrando-nos que para Deus, ou no Senhor, não há acepção de pessoas. A diferença existe, a diversidade é uma realidade e um bem, porém não há, dentro de um quadro hierárquico superior ou inferior, melhor ou pior. Cada um é, segundo suas possibilidades um elo, um componente do corpo de Cristo, que vivendo sob a autoridade do Cabeça, que em última instância é Deus, caminha para a formação de um Sistema Perfeito, onde há Paz, Saúde, e Felicidade.

BIBLIOGRAFIA:

A Bíblia de Jerusalém, 2ª impressão, SP, Edições Paulinas, 1992.

ALMEIDA, João Ferreira. A Bíblia, 74a Impressão. Rio de Janeiro, Imprensa Bíblica Brasileira, 1991.

BAUMERT, Norbert. Mulher e Homem em Paulo, São Paulo, Ed. Loyola, 1999.

EHRMAN, Bart D. O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? São Paulo, Prestígio, 2006.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Eletrônico Sec. XXI, versão 3.0, Nova Fronteira, 1999.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico Houaiss, Versão 1.0 ed. Objetiva, 2001.

HUBERTO, Rohden. Que Vos Parece do Cristo, São Paulo, Alvorada, 3ª Ed.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 50a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1980.

KOCHMANN, Rabina Sandra. O Lugar da Mulher no Judaísmo. Site (a completar)

STERN, David. Novo Testamento Judaico, São Paulo, Ed. Vida, 2007.

TREBOLLE Barrera, Júlio. A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, 2ª ed., Petrópolis, Vozes, 1999.

XAVIER, Francisco C. / Emmanuel. O Consolador, 16ª ed., Rio de Janeiro, FEB, 1993.

------------ Paulo e Estevão, 41ª ed., Rio de Janeiro, FEB, 2004.

 

1 Gálatas, 2: 20

2 Gálatas, 3: 28

3 Ver nota 18 de nosso texto.

4 Cf. O Consolador, questão 321

5 Para este tema me fundamentei em Baumert, op. Cit. Pág. 179.

6 Cf. João, 13: 34


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Respostas a este tópico

Olá irmãos, gostei muito do texto, acredito que vamos ter muito a conversar sobre este assunto, fiz a leitura do livro Paulo e Estevão recebi muitas informações.Estou feliz por estar fazendo parte deste grupo. Luz e Paz.

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