Da Revista Espírita – Maio 1864

SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS.
DISCURSO DE ABERTURA DO SÉTIMO ANO SOCIAL, 1o DE ABRIL DE 1864.


Senhores e caros colegas,
A Sociedade começa seu sétimo ano, e esta duração não é sem significação quando se trata de uma ciência nova. Um facto que não tem uma menor importância, é que, constantemente, ela seguiu uma marcha ascendente. No entanto, vós o sabeis, senhores, é menos em seu sentido material do que em seu sentido moral que seu progresso se realizou.
Não só ela não abriu suas portas a qualquer um, nem solicitou a quem quer que seja fazer isso, mas antes visou circunscrever-se do que estender-se indefinidamente.
O número dos membros activos, com efeito, é uma questão secundária para toda sociedade que, como esta, não visa entesourar; não são subscritores que ela procura, eis porque não se prende à quantidade; assim o quer a própria natureza de seus trabalhos, exclusivamente científicos, para os quais é preciso a calma e o recolhimento, e não o movimento da multidão.
O sinal de prosperidade da Sociedade não está, pois, nem no número de seu pessoal, nem no de seus valores em caixa; está inteiramente no progresso de seus estudos, na consideração que ela adquiriu, no ascendente moral que ela exerce fora, enfim, no número dos adeptos que se ligam aos princípios que professa, sem por isso disso fazer partido. Sob esse aspecto, senhores, sabeis que o resultado ultrapassou todas as previsões; e, coisa notável, não é somente na França que ela exerce esse ascendente, mas no estrangeiro, porque, para os verdadeiros Espíritas, todos os homens são irmãos, qualquer que seja a nação a que pertençam. Disso tendes a prova material pelo número das sociedades e dos grupos que, em diversos países, vêm se colocar sob seu patrocínio e reclamar seus conselhos. Isto é um facto notório e tanto mais característico quanto essa convergência para ela se faz espontaneamente, porque não é menos notório que ela nem nada provocou nem solicitou. É, pois, muito voluntariamente que se vêm alinhar sob a bandeira que ela desfralda. A que se prende isso? Suas causas são múltiplas; e não é inútil examiná-las, porque isso entra na história do Espiritismo.
Uma dessas causas vem naturalmente de que a primeira regularmente constituída foi também a primeira que alargou o círculo de seus estudos e abarcou todas as partes da ciência espírita. Quando o Espiritismo apenas saía do período de curiosidade e das mesas girantes, ela entrou resolutamente no período filosófico, que de alguma sorte o inaugurou; por isso mesmo, desde o início fixou a atenção das pessoas sérias.
Mas isso não teria servido para nada se ela tivesse permanecido fora dos princípios ensinados pela generalidade dos Espíritos. Se não tivesse professado senão as suas próprias ideias, jamais os teria imposto à imensa maioria dos adeptos de todos os países.
A Sociedade representa os princípios formulados em O Livro dos Espíritos; sendo esses princípios ensinados por todo a parte, muito naturalmente se reuniram ao centro de onde partiam, ao passo que aqueles que se colocaram fora desse centro, ficaram isolados, porque não encontraram eco entre os Espíritos.
Repetirei aqui o que disse em outro lugar, porque não saberia muito dize-lo de novo:
A força do Espiritismo não reside na opinião de um homem nem de um Espírito; ela está na universalidade do ensino dado por estes últimos; o controle universal, como o sufrágio universal, decidirá no futuro todas as questões litigiosas; fundará a unidade da doutrina bem melhor do que um concilio de homens. Esse princípio, disto estejamos certos, senhores, fará o seu caminho, como aquele de: Fora de caridade não há salvação, porque está fundado sobre a mais rigorosa lógica e a abdicação da personalidade. Não poderá contrariar senão os adversários do Espiritismo, e aqueles que não têm fé senão em suas luzes pessoais.
É porque a Sociedade de Paris jamais se afastou em nada desse caminho traçado pela sã razão, que ela conquistou o lugar que ocupa; confia-se nela, porque sabe-se que ela não avança nada levianamente, que não impõe suas próprias ideias, e que, por sua posição, ela está, mais do que o que seja, no estado de constatar o sentido no qual se pronuncia o que se pode justamente chamar o sufrágio universal dos Espíritos. Se jamais ela se colocasse ao lado da maioria, cairia, porque tem seu ponto de apoio por toda a parte, mas a sociedade não tendo mais o seu por toda a parte, cairia. O Espiritismo, com efeito, por sua natureza toda excepcional, não repousa mais sobre uma sociedade do que sobre um indivíduo; a de Paris jamais disse: Fora de mim, não há Espiritismo; ela viria, pois, a cessar de existir, que não seguiria menos seu curso, porque tem raízes na multidão inumerável dos intérpretes dos Espíritos, no mundo inteiro, e não numa reunião qualquer, cuja existência é sempre eventual.
Os testemunhos que a Sociedade recebe provam que é estimada e considerada, e, certamente, é do que mais se felicita. Se a causa primeira disso está na natureza de seus trabalhos, é justo acrescentar que o deve também à boa opinião que levaram de suas sessões os numerosos estrangeiros que vieram visitá-la; a ordem, a conservação, a gravidade, os sentimentos de fraternidade que viram ali reinar, os convenceram melhor do que todas as palavras de seu carácter eminentemente sério.
Tal é, senhores, a posição que, como fundador da Sociedade, tive a lhe assegurar; tal é também a razão pela qual jamais cedi a nenhuma incitação tendente a fazê-la desviar do caminho da prudência. Deixei dizer e fazer os impacientes de boa ou de má-fé; sabeis em que se tornaram, ao passo que a Sociedade está ainda de pé.
A missão da Sociedade não é fazer de adeptos para ela mesma, é por isso que ela não convoca jamais o público; o objectivo de seus trabalhos, como o indica seu título, é o progresso da ciência espírita. Para esse efeito, aproveita, não só as suas próprias observações, mas as que se fazem em outra parte; ela recolhe os documentos que lhe chegam de todas as partes; estuda-os, perscruta-os e os compara, para deduzir-lhes os princípios e deles tirar as instruções que ela difunde, mas que não dá jamais levianamente. Assim é que seus trabalhos aproveitam a todos, e se adquiriram alguma autoridade, é porque se os sabe conscienciosamente feitos, sem prevenção sistemática contra as pessoas ou as coisas.
Compreende-se, pois, que, para atingir esse objectivo, um número de membros mais ou menos considerável é coisa indiferente; o resultado seria obtido com uma dúzia de pessoas tão bem e melhor ainda do que com várias centenas. Não tendo em vista nenhum interesse material, é a razão pela qual não procura o número; sendo seu objectivo grave e sério, não faz nada em vista da curiosidade; enfim, como os elementos da ciência não lhe ensinariam nada de novo, não perde seu tempo em repetir o que já sabe. Seu papel, como o dissemos, é de trabalhar pelo progresso da ciência pelo estudo; não é junto dela que aqueles que nada sabem vêm se convencer, mas que os adeptos já iniciados vêm haurir novas instruções; tal é o seu verdadeiro carácter. O que lhe é preciso, o que lhe é indispensável, são as vastas relações que lhe permitem ver do alto o movimento geral, para julgar o conjunto, conformar-se com ele e fazê-lo conhecer; ora, essas relações, ela as possui; vieram por si mesmas, e aumentam todos os dias, assim como disso tendes a prova pela correspondência.
O número das reuniões que se formam sob seus auspícios e solicitam seu patrocínio pelos motivos desenvolvidos acima, é o fato mais característico do ano social que acaba de se escoar. Este facto não é somente muito honroso para a Sociedade, e é, além disso, de uma importância capital, naquilo que testemunha, ao mesmo tempo, a extensão da doutrina e o sentido no qual tende a se estabelecer a unidade.
Aqueles que nos conhecem sabem a natureza das relações que existem entre a Sociedade de Paris e as sociedades estrangeiras, mas é essencial que todo o mundo o saiba, para evitar os enganos aos quais as alegações da malevolência poderiam dar lugar.
Não é, pois, supérfluo repetir: Que os Espíritas não formem entre si nem uma congregação, nem uma associação; que entre as sociedades diversas não haja sem solidariedade material, nem filiação oculta ou ostensiva; que não obedeçam a nenhuma palavra secreta; que aqueles que dela fazem parte estão sempre livres de se retirarem se isso lhes convém; que se não abrem suas portas ao público, não é porque ali se passe nada de misterioso nem de oculto, mas porque não querem ser perturbadas pelos curiosos e os importunos; longe de agirem na sombra, estão sempre prontas, ao contrário, para se submeterem às investigações da autoridade legal e às prescrições que lhes serão impostas. A de Paris não tem sobre as outras senão a autoridade moral que tem de sua posição e de seus estudos e que se quer muito lhe conceder. Dá os conselhos que se reclama de sua experiência, mas não se impõe a ninguém; a única palavra de ordem que ela dá, como sinal de reconhecimento entre os verdadeiros Espíritas, é esta: Caridade para com todos, mesmo para com os nossos inimigos. Declinaria, pois, toda solidariedade moral daquelas que se afastassem desse princípio, que tivessem um móvel de interesse material, que, em lugar de manter a união e a boa harmonia, tendessem a semear a divisão entre os adeptos, porque se colocariam, por isto mesmo, fora da Doutrina.
A Sociedade de Paris não pode incorrer na responsabilidade dos abusos que, por ignorância ou outras causas, pode-se fazer do Espiritismo; não entende, de nenhum modo, cobrir com seu manto aqueles que os cometem; ela não pode nem deve tomar sua defesa diante da autoridade, em caso de perseguição, porque isso seria aprovar o que a Doutrina desaprova. Quando a crítica se dirige a esses abusos, não temos em que refutá-la, mas somente responder-lhe: Se vos désseis ao trabalho de estudar o Espiritismo, saberíeis o que ele diz, e não o acusaríeis daquilo que ele condena. Cabe, pois, aos Espíritas sinceros evitar com cuidado tudo o que poderia dar lugar a uma crítica fundada; a isso não chegarão seguramente em se contendo nos preceitos da Doutrina. Não é porque uma reunião se intitule grupo, círculo ou sociedade espírita, que deve necessariamente ter nossas simpatias; a etiqueta jamais foi uma garantia absoluta da qualidade da mercadoria; mas, segundo a máxima: "Reconhece-se a árvore pelo seu fruto.", nós a apreciamos em razão do sentimento que a animam, do móvel que a dirige, e a julgamos por suas obras.
A Sociedade de Paris se felicita quando pode inscrever, na lista de seus adeptos, reuniões que oferecem todas as garantias desejáveis de ordem, de boa correcção, de sinceridade, de devotamento e de abnegação pessoal, e que pode lhes oferecer como modelos aos seus irmãos em crença.
A posição da Sociedade Espírita de Paris é, pois, exclusivamente moral, e jamais ambicionou outra. Aqueles de nossos antagonistas que pretendem que todos os Espíritas são seus tributários; que ela se enriquece às suas expensas, repassando-lhe seu dinheiro em seu proveito; que supõem suas pretensas rendas sobre o número de adeptos, provam, ou uma notável má-fé, ou a ignorância mais absoluta do que fala. Sem dúvida, ela tem por si a sua consciência, mas tem mais, para confundir a impostura, os seus arquivos, que testemunharão sempre da verdade, no presente como no futuro.
Sem desígnio premeditado, e pela força das coisas, a Sociedade tornou-se um centro para onde chegam as informações de toda natureza concernentes ao Espiritismo; ela se acha, sob este aspecto, numa posição que se pode dizer excepcional, pelos elementos que possui para assentar a sua opinião. Melhor do que quem quer que seja, pode, pois, conhecer o estado real dos progressos da Doutrina em cada região, e apreciar as causas locais que podem favorecer-lhe ou retardar-lhe o desenvolvimento. Essa estatística não será um dos elementos menos preciosos da história do Espiritismo, ao mesmo tempo que permite estudar as manobras de seus adversários, e calcular a importância dos golpes que dão para o derrubar. Só esta observação bastaria para fazer prever o resultado definitivo e inevitável da luta, como se julga o sucesso de uma batalha vendo o movimento de dois exércitos.
Pode-se dizer, em toda verdade, que, sob esse aspecto, estamos em primeiro plano para observar, não só a táctica dos homens, mas a dos Espíritos. Com efeito, vemos da parte destes, uma unidade de vista e de plano sabiamente e providencialmente combinado, diante do qual forçosamente devem se quebrar todos os esforços humanos, porque os Espíritos podem atingir os homens e feri-los, ao passo que escapam destes últimos. Como se vê, a parte não é igual.
A história do Espiritismo moderno será uma coisa verdadeiramente curiosa, porque será a da luta do mundo visível e do mundo invisível; os Antigos teriam dito: A guerra dos homens contra os deuses. Isso será também a dos fatos, mas sobretudo e forçosamente a dos homens que tiverem desempenhado nele um papel activo, num sentido como no outro, de verdadeiros sustentáculos, como de adversários da causa. É preciso que as gerações futuras saibam a quem deverão um justo tributo de reconhecimento; é preciso que consagrem a memória dos verdadeiros pioneiros da obra regeneradora, e que não haja glórias usurpadas.
O que dará a essa história um carácter particular é que em lugar de ser feita, como muitas outras, dos anos ou dos séculos tarde demais, sobre a fé da tradição e da lenda, ela se faz à medida dos acontecimentos, e sobre peças autênticas das quais possuímos, por uma correspondência incessante vinda de todos os países onde a Doutrina se encontra, a colecção mais vasta e mais completa que seja no mundo.
Sem dúvida o Espiritismo, em si mesmo, não pode ser atingido pelas alegações mentirosas de seus adversários, com ajuda das quais tentam mascará-lo; mas elas poderiam, no entanto, dar uma falsa ideia de seu começo e de seus meios de acção, desnaturando os actos e o carácter dos homens que nisso terão cooperado, se se lhes desse uma contrapartida oficial. Esses arquivos serão, para o futuro, a luz que levantará todas as dúvidas, uma mina onde os comentaristas futuros poderão haurir com certeza. Vede, senhores, de que importância é esse trabalho no interesse da verdade histórica; a nossa própria Sociedade nisso está interessada, em razão da parte que ela toma no movimento.
Há um provérbio que diz: "Quem é nobre deve proceder com nobreza;" a posição da Sociedade lhe impõe também obrigações para conservar seu crédito e seu ascendente moral. A primeira é de não se afastar, quanto à teoria, da linha que ela tem seguido até este dia, uma vez que lhe recolhe os frutos; a segunda está no bom exemplo que ela deve dar justificando, pela prática, a bondade da doutrina que professa. Esse exemplo, sabe se, provando a influência moralizadora do Espiritismo, é um poderoso elemento de propaganda, ao mesmo tempo que é o melhor meio de fechar a boca dos detractores. Um incrédulo, que não conhecesse senão a filosofia da Doutrina, diria que com tais princípios um Espírita deveria necessariamente ser um homem honesto. Esta palavra é profundamente verdadeira; mas, para ser completa, seria preciso acrescentar que um verdadeiro Espírita deve necessariamente ser bom e benevolente para com seus semelhantes, quer dizer, praticar a caridade evangélica em sua mais larga acepção.
É a graça que todos devemos pedir a Deus nos conceder, tornando-nos dóceis aos conselhos dos bons Espíritos que nos assistem. Pecamos igualmente este de nos continuar a sua protecção durante o ano que acaba de se abrir, e nos dar a força de nos tornamos dignos disso; é o meio mais seguro de justificar e de conservar a posição que a Sociedade adquiriu.
A. K.

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