A humanidade lida muito mal com o erro. Em primeiro lugar, nós erramos, mas demoramos muito até assumirmos o erro. Negamos, disfarçamos, dando outros nomes, desviando responsabilidades, aprofundando mesmo o erro na tentativa ingênua de nos dizer inocentes. No entanto, como ensinou Abraham Lincoln, podemos enganar poucos por muito tempo, muitos por pouco tempo, mas ninguém consegue enganar todos por todo o tempo.

Mesmo quando ultrapassamos essa fase, conquistamos essa primeira vitória sobre nós mesmos, alcançando a fundamental consciência do erro, a maioria de nós recai no segundo terrível equívoco da nossa forma de lidar com os erros. Nós cristalizamos, prendemos os errados em cadeias, correntes, grilhões, e não apenas físicos. Nossas próprias mentes produzem cadeias mentais que congelam os errados como se o erro fosse a própria natureza deles. Rotulamo-nos com criminosos, pecadores, malvados, ou, a síntese de toda a mentalidade cristalizadora: o demônio, o ser da escuridão presente em todas as mitologias, que pensamos nascido para o erro ou, quando o compreendemos vindo da luz mas caído nas trevas, concebemo-lo destinado eternamente ao mal.

Isso ocorre por aplicarmos ao erro uma carga exagerada de dramaticidade. Deixamo-nos tomar pela revolta ou pela autocompaixão a cada erro, a primeira ligada à falha que outros cometem conosco, a segunda à que nós cometemos com outros. Deixando o tempo, a vida passar nesse estado de alma, vamos gerando rancor ou culpa, sintomas  dessa humanidade primitiva que erra muito, o que poderia ser apenas típico de quem tem muito a aprender, mas que cristaliza e afunda no erro, o que é nossa tragédia.

O terceiro veneno, na verdade consequência de um acúmulo do anterior, que vem intoxicando nossas almas em milênios de confrontos com o erro, é a punição ao outro, a vingança, ou a si mesmo, a auto destruição. Mesmo esquecidos dos fatos que os geraram em outras vidas, muitos de nós já nascemos sob essa matriz de dramatização do erro, marcados pela desvalia, pela revolta ou pela culpa, pela busca obsessiva pela punição. A superação dessa matriz de dramatização do erro, base de toda a violência hetero ou auto infligida que retém a Terra na escuridão há milênios, é a grande libertação a ser buscada por todas as almas, é a magnífica fronteira a ser desbravada por todos os espíritos para adentrarmos no mundo de regeneração.

BEM AVENTURADOS OS MANSOS, POIS ELES HERDARÃO A TERRA

Existe uma outra forma de lidar com o erro e ela foi trazida há milênios por Jesus, vem sendo ensinada há séculos pela ciência psicológica, mas foi apenas pontualmente praticada por raras mentalidades lúcidas.

Em primeiro lugar, precisamos perceber que na criação de Deus – exatamente por tudo ser criação de Deus – não existem maus, apenas ignorantes. O maior erro da humanidade, porque cometido contra o espírito mais evoluído da Terra, o que mais espalhou o Bem à humanidade, foi atestado pela própria sublime vítima, apenas como ignorância. Do alto da cruz, ele proclamou: perdoai-lhes, Senhor, eles não sabem o que fazem.

Na verdade, só existe um método de aprender e evoluir: é tentando, uma expressão do próprio viver (por isso o servo que enterra os talentos é chamado de mau e inútil). Da tentativa, então, emerge o erro ou o acerto, os quais serão a base de qualquer crescimento, o qual ocorrerá, porém, apenas se analisarmos nossa participação nas situações, consolidando as atitudes corretas, conscientizando-nos das atitudes erradas e propondo-nos à reparação baseada no profundo arrependimento e na vigilância para que o erro não se repita. Tais conquistas só podem ser alcançadas com a consciência do processo educativo na perspectiva da eternidade, e com a humildade, essa grande inimiga do orgulho, o artífice gerador da matriz da dramatização do erro. 

A segunda chave para os grilhões, correntes e cadeias que nos têm prendido ao erro é a prontidão. O arrependimento, segundo todos os evangelhos, resumia o anúncio de João Batista e a lição inicial do próprio Jesus nas inesquecíveis oito palavras que, segundo eles, resumiam a pregação de ambos: “Arrependei-vos, é chegado o reino dos céus”. Mas, logo a seguir, é preciso disposição para a ação.

Há, mesmo, um método maravilhoso para cortarmos o mal pela raiz. Nele, partimos igualmente da consciência do erro, mas não nos deixamos atolar na revolta e na culpa, afundar na violência, fazendo com que um erro leve a outro. 

Para isso, é preciso termos consciência do orgulho como um cavaleiro que sabe que seu cavalo tende a ir para um caminho errado e então busca prontamente puxá-lo ao caminho certo. Essa atitude de humildade e prontidão é expressa magistralmente pelo Messias ao dizer: Reconcilia-te com teu adversário enquanto estás a caminho, justamente para que o erro não se cristalize nas almas, ou seja, para que teu adversário não te leve ao policial, e ele ao juiz, e este à cadeia, de onde você só sairá após ter pago até o último centavo.

Em O Livro dos Espíritos, como prometido que faria o “outro consolador”, explica-se e reafirma-se preciosamente a doutrina do Cristo (ver Expiação e Arrependimento - questões 990 a 1002). Sobre espíritos pretensamente votados ao mal, diz-se que “aquele que, nesta vida, só tem o instinto do mal, terá noutra o do bem” (questão 993). Sobre o processo de transformação do ser após o erro, “o arrependimento lhe apressa a reabilitação, mas não o absolve. Diante dele não se desdobra o futuro, que jamais se lhe tranca?” (questão 1002). A respeito da tarefa que se segue ao arrependimento, “só por meio do bem se repara o mal e a reparação nenhum mérito apresenta, se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais” (questão 1000).

Emerge assim dos Evangelhos e da Codificação, em perfeita harmonia, uma nova matriz que Jesus e Kardec nos apresentam como um convite para superação da matriz antiga e violenta. Da consciência do erro, ela vai à análise imediata de si e da situação, à neutralização da revolta e da culpa pelo perdão e pelo auto-perdão, chegando assim ao assumir responsabilidades, pelo serviço e pela caridade – a Matriz do Amor, que cobre a multidão dos pecados – uma atitude madura que gera auto-estima, auto-amor, que propicia reparações positivas e produtivas, aprendizados claros e sólidos, que, ao invés de nos escravizar ao passado e ao erro, nos liga ao um compromisso com o acerto, ao nosso destino de luz, expresso – para nossa estupefação, por nos parecer otimista demais –, na máxima revalidada pelo Cristo, que proclamou: vós sois Deuses. 

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