A Força Criativa do Movimento Espírita e os seus Frutos

A Força Criativa do Movimento Espírita e os seus Frutos

Por Jane Maiolo

“E, avistando uma figueira perto do caminho, dirigiu-se a ela, e não achou nela senão folhas. E disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti! E a figueira secou imediatamente.” [1]

Há séculos as anotações do apóstolo Mateus tira a paz de muitos estudiosos e pesquisadores das novas escrituras. Descreve-nos ainda o evangelista que “Jesus entrou no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas”.[2] Teria de fato acontecido esse episódio? Jesus de fato teria feito “secar” a figueira e expulsado os vendilhões do templo?

Questionamentos como esses são válidos para que possamos extrair as lições espirituais das anotações que descrevem a história religiosa de um povo, o seu relacionamento ante as questões humanas e as percepções em torno das normas de conduta num determinado contexto.

Causa-nos estranheza defrontar com algumas reflexões que apontam a indignação do mestre perante os cambistas do templo no período das comemorações consagradas pela tradição, como por exemplo, na ocasião que antecedia a Páscoa dos judeus.

Será que Jesus se indignava?

Talvez ainda não meditamos a respeito das diferentes faces de Jesus. A postura de indignação do Mestre nos revela seu lado enérgico, justo, amoroso e incorruptível. Postura de quem não se coaduna com as peripécias do mal.

No período da Páscoa judaica os peregrinos deslocavam-se à Jerusalém com a preocupação de cumprir os rituais de purificação no Templo e assim ficar nas “graças” de Deus. Ao chegarem, deparavam-se com imensos balcões de negócios comerciais (feiras), explorados por mercadores e sacerdotes inescrupulosos, fazendo com que muitos peregrinos não pudessem cumprir os ritos tradicionais da festa em face da majoração exorbitante do preço dos animais que eram utilizados para a oferenda do sacrifício.

Jesus nos ensina que é preciso o forte tomar a defesa do fraco, por isso age de maneira a ensinar, através de um recurso didático, intitulado na cultura judaica como “parábola de ação” ou “mímica judaica”. Lição que os homens guardariam na memória. Era comum um profeta registrar um ensinamento através de “parábolas de ações” ou “mímicas judaica” . Recursos esses tradicionalmente utilizados pelos profetas do antigo testamento.

Jesus nunca foi condescendente com o erro. Condescendência é atitude de quem concorda com algo embora tenha vontade de recusar, mas não o faz por medo, fraqueza ou para manter-se numa zona de conforto.

O episódio da expulsão dos vendilhões do templo e a passagem da figueira que secou são representações simbólicas de um ensinamento, ou seja, Jesus ao verificar que o templo (figueira) não produzia os frutos da vida e salvação transmite um ensinamento precioso para os homens, utilizando a “mímica judaica”.

A lição proposta aos discípulos refere-se que não basta a beleza e a suntuosidade das folhas, mas a árvore tem que produzir frutos, ou seja, o templo só tinha aparência de sagrado ou de casa de Deus, porém tornara-se um ambiente improdutivo ou como advertido por Ele “um covil de ladrões”, [3]desprovido de frutos de amor ,vida e salvação. Ele ainda reforça que: “Não nasça de ti nenhum fruto” ou seja, para continuar a reproduzir esses padrões melhor que se extermine com essa estrutura e não reste pedra sobre pedra.

Jesus tinha fome!

Desejava o Mestre alimentar-se das obras de Deus. O templo, que era a única árvore do caminho, não estava produzindo o alimento para as almas, que não mais ignoramos ser o amor.

Entretanto Jesus é visto por nós como o Filho de Deus, o Messias, o Cordeiro, o Mestre, o Senhor, o Rei ,o Mito! Porém, no século XIX , Jesus ganha outra característica singular na Terceira Revelação: a de “Modelo e Guia” da humanidade conforme resposta dos espíritos a Allan Kardec na questão 625 de O Livro dos Espíritos.[4]

O Movimento Espírita orgulha-se dessa percepção avançada e verdadeira, mas seria importante refletir se os frutos da figueira têm alimentado a fome de amor daqueles que procuram os “templos” (instituições espíritas) com o intuito de saciar–se de abrigo acolhedor ,consolação ,esclarecimento e orientação espiritual.

Preocupar-se com o comércio, oferendas e sacrifícios simbólicos e ou materiais ainda estão na pauta das aflições humanas, porém há que se aferir qual o grau de envolvimento com estas questões que embaraçam o crescimento espiritual.

Não resta dúvida que as folhas da nossa figueira são exuberantes, porém é ocasião de aferição dos valores morais e época de saciar nossa fome de amor e consolação. Em verdade , frutos estes que já deveríamos colher em todas as árvores espalhadas nas hostes espíritas aqui do Brasil e d’outros países.

Ao longo de décadas o Movimento Espírita tem contribuído para minorar a fome de pão, as agruras do frio, as agonias da ignorância espiritual. Reuniões mediúnicas têm aliviado o fardo psicoemocional de muitas criaturas obsidiadas, atormentadas, desequilibradas.

Campanhas pela fraternidade, pela paz e pela vida extrapolam as fronteiras do Brasil e multiplicam-se num crescente clamor pela dignidade humana. Hospitais, sanatórios ,educandários, escolas têm sido erigidos buscando contribuir para a diminuição do sofrimento atendendo a demanda aflitiva do momento. Mães, pais e familiares têm se beneficiado com as psicografias das mensagens advindas dos entes amados que os antecederam na grande viagem.

Homens da Ciência, da filosofia e da religião têm doado seu tempo para levar instrução e motivação aos seus pares em vários lugares do mundo. Em suma, a força criativa do Movimento Espírita é concreta, apetecedora, profundamente consoladora. É importante que esses frutos de vida e amor sejam apetitosos e acessíveis a todos.

Com Jesus e Kardec avançaremos rumo à alvorada de uma Nova Era após a longa madrugada das incoerências religiosas nutridas pela ignorância espiritual.

Referências bibliográficas:

[1] Mt. 21:19
[2] Mt. 21:12
[3] Mt. 21:13
[4] Kardec Allan. O Livro dos Espíritos, questão 625, RJ: Ed. FEB, 2002

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