A Vida Superior
Léon Denis

A alma virtuosa, depois de haver vencido suas paixões, depois de abandonar o corpo, miserável instrumento de dor e de glória, vai, através da imensidade, juntar-se às suas irmãs do espaço. Atraída por uma força irresistível, ela percorre regiões onde tudo é harmonia e esplendor; mas a linguagem humana é muito pobre para descrever o que aí se passa.

Entretanto, que alívio, que deliciosa alegria então experimenta, sentindo quebrada a pesada cadeia que a retinha à Terra, podendo abraçar a imensidão, mergulhar no espaço sem limites, librar-se além dos mundos!

Não mais tem um corpo enfermo, sofredor e pesado como uma barra de chumbo; não mais terá fardo material para arrastar penosamente.
Desembaraçada de suas cadeias, entra a irradiar e embriaga-se de espaço e de liberdade. A fealdade terrena e a decrepitude deram lugar a um corpo fluídico de aparência graciosa e de formas ideais, diáfano e brilhante.

Aí encontra aqueles a quem amou na Terra, que a precederam na nova vida e agora parecem esperá-la. Então, comunica-se livremente com todos, suas expansões são repletas de felicidade, embora ainda um pouco anuviadas por tristes reminiscências da Terra e pela comparação da hora presente com um passado cheio de lágrimas. Outros Espíritos que perdera de vista em sua última encarnação, mas que se tinham tornado seus afeiçoados por provas suportadas em comum no decurso das idades, vêm também juntar-se aos primeiros. Todos os que compartilharam seus bons ou maus dias, todos os que com ela se engrandeceram, lutaram, choraram e sofreram correrão ao seu encontro, e sua memória, despertando-se desde então, ocasionará explosões de felicidade e venturas que a pena não sabe descrever.

Como resumir as impressões da vida radiante que se abre ao Espírito? A veste grosseira, o manto pesado que lhe constrangia os sentidos íntimos, despedaçando-se subitamente, tornam centuplicadas as suas percepções. O horizonte se lhe alarga e não tem mais limites. O infinito incomensurável, luminoso, desdobra-se às suas vistas com suas ofuscantes maravilhas, com seus milhões de sóis, focos multicores, safiras e esmeraldas, joias enormes, derramadas no azul e seguidas de seus suntuosos cortejos de esferas. Esses sóis, que aparecem aos homens como simples lampadários, o Espírito os contempla em sua real e colossal grandeza; vê-os mais poderosos que o luminar do nosso planeta; reconhece a força de atração que os prende, e distingue ainda, em longínquas profundezas, os astros maravilhosos que presidem às evoluções.

Todos esses fachos gigantescos, ele os vê em movimento, gravitando, prosseguindo seu curso vagabundo, entrecruzando-se, como globos de fogo lançados no vácuo pela mão de um invisível jogador.

Nós, perturbados sem cessar por vãos rumores, pelo confuso sussurro da colmeia humana, não podemos conceber a calma solene, o majestoso silêncio dos espaços, que enche a alma de um sentimento augusto, de um assombro que toca as raias do pavor.

Mas o Espírito puro e bom é inacessível ao temor. Esse infinito, frio e silencioso para os Espíritos inferiores, anima-se logo para ele e o faz ouvir sua voz poderosa. Livre da matéria, a alma percebe, aos poucos, as vibrações melodiosas do éter, as delicadas harmonias que descem das regiões celestes e compreende o ritmo imponente das esferas.

Esse cântico dos mundos, essas vozes do infinito que soam no silêncio ela os saboreia até se sentir arrebatar. Recolhida, inebriada, cheia de um sentimento grave e religioso, banha-se nas ondas do éter, contempla as profundezas siderais, as legiões de Espíritos, sombras ligeiras que flutuam e se agitam em esteiras de luz.

Assiste à gênese dos mundos, vê a vida despertar-se e crescer na sua superfície, segue o desenvolvimento das humanidades que os povoam e, nesse grande espetáculo, verifica que em toda parte do Universo a atividade, o movimento e a vida ligam-se à ordem.

Qualquer que seja seu adiantamento, o Espírito que acaba de deixar a Terra não pode aspirar a viver indefinidamente dessa vida superior. Adstrito à reencarnação, essa vida não lhe é senão um tempo de repouso: uma compensação aos seus males, uma recompensa aos seus méritos. Apenas aí vai retemperar-se e fortificar-se para as lutas futuras.

Porém, nas vidas que o esperam não terá mais as angústias e os cuidados da existência terrestre. O Espírito elevado é destinado a renascer em planetas mais bem dotados que o nosso. A escala grandiosa dos mundos tem inúmeros graus, dispostos para a ascensão progressiva das almas, que os devem transpor cada um por sua vez.

Nas esferas superiores à Terra o império da matéria é menor. Os males por esta originados atenuam-se, à medida que o ser se eleva e acabam por desaparecer. Lá, o ser humano não mais se arrasta penosamente sob a ação de pesada atmosfera; desloca-se de um lugar para outro com muita facilidade. As necessidades corpóreas são quase nulas e os trabalhos rudes, desconhecidos. Mais longa que a nossa, a existência aí se passa no estudo, na participação das obras de uma civilização aperfeiçoada, tendo por base a mais pura moral, o respeito aos direitos de todos, a amizade e a fraternidade. As guerras, as epidemias e os flagelos não têm acesso e os grosseiros interesses, causa das nossas ambições, não mais dividem os povos.

Chegará afinal um dia em que o Espírito, depois de haver percorrido o ciclo de suas existências terrestres, depois de se haver purificado através dos mundos, por seus renascimentos e migrações, vê terminar a série de suas encarnações e abrir-se a vida espiritual, definitivamente, a verdadeira vida da alma, donde o mal, as trevas e o erro estão banidos para sempre. A calma, a serenidade e a segurança profunda substituem os desgostos e as inquietações de outrora. A alma chegou ao término de suas provações, não mais terá sofrimento. Com que emoção rememora os fatos de sua vida, esparsos na sucessão dos tempos, sua longa ascensão, a conquista de seus méritos e de sua elevação! Que ensinamento nessa marcha grandiosa, no percurso da qual se constitui e se afirma a unidade de sua natureza, de sua personalidade imortal!

Compara os desassossegos de outras épocas, os cuidados e as dores do passado, com as aventuras do presente, e saboreia-as a longos tragos. Que inebriamento o de sentir-se viver no meio de Espíritos esclarecidos, pacientes e atenciosos; unir-se-lhes pelos laços de inalterável afeto; participar das suas aspirações, ocupações e gozos; ser-se compreendido, sustentado, amado por todos, livre das necessidades e da morte, na fruição de uma mocidade sobre a qual os séculos não fazem mossa!

Depois, vai estudar, admirar, glorificar a obra infinita, aprofundar ainda os mistérios divinos; vai reconhecer por toda parte a beleza e a bondade celeste; identificar-se e saciar-se com elas; acompanhar os Gênios superiores em seus trabalhos, em suas missões; compreender que chegará um dia a igualá-los; que subirá ainda mais e que a esperam, sempre e sempre, novas alegrias, novos trabalhos, novos progressos: tal é a vida eterna, magnífica, a vida do espírito purificado pelo sofrimento.

Os céus elevados são a pátria da beleza ideal e perfeita em que todas as artes bebem a inspiração. Os Espíritos eminentes possuem em grau superior o sentimento do belo. Este é a fonte dos mais puros gozos, e todos sabem realizá-lo em seus trabalhos, diante dos quais empalidecem as obras-primas da Terra.

Cada vez que uma nova manifestação do gênio se produz sobre o mundo, cada vez que a arte se nos revela sob uma forma aperfeiçoada, pode dizer-se que um Espírito descido das altas esferas tomou corpo na Terra para iniciar os homens nos esplendores da beleza eterna. Para a alma superior, a arte, sob seus múltiplos aspectos, é uma prece, uma homenagem prestada ao Princípio de todas as coisas.

O Espírito, pelo poder de sua vontade, opera sobre os fluidos do espaço, os combina, dispondo-os a seu gosto, dá-lhes as cores e as formas que convêm ao seu fim. É por meio desses fluidos que se executam obras que desafiam toda comparação e toda análise.

Construções aéreas, de cores brilhantes, de zimbórios resplendentes: sítios imensos onde se reúnem em conselho os delegados do Universo; templos de vastas proporções de onde se elevam acordes de uma harmonia divina; quadros variados, luminosos: reproduções de vidas humanas, vidas de fé e de sacrifício, apostolados dolorosos, dramas do infinito. Como descrever magnificências que os próprios Espíritos se declaram impotentes para exprimir no vocabulário humano?

É nessas moradas fluídicas que se ostentam as pompas das festas espirituais. Os Espíritos puros, ofuscantes de luz, agrupam-se em famílias. Seu brilho e as cores variadas de seus invólucros permitem medir a sua elevação, determinar-lhes os atributos. Suaves e encantadores concertos, comparados aos quais os da Terra não são mais que ruídos discordantes; por cenários têm eles o espaço infinito, o espetáculo maravilhoso dos mundos que rolam na imensidão, unindo suas notas às vozes celestes, ao hino universal que sobe a Deus.

Todos esses Espíritos, associados em falanges inumeráveis, conhecem-se e amam-se. Os laços de família, os afetos que os uniam na vida material, quebrados pela morte, aí se reconstituem para sempre.

Destacam-se dos diversos pontos do espaço e dos mundos superiores para comunicarem mutuamente os resultados de suas missões, de seus trabalhos, para se felicitarem pelos êxitos obtidos e coadjuvarem-se uns aos outros nas empresas difíceis.

Nenhum pensamento oculto, nenhum sentimento de inveja tem ingresso nessas almas delicadas. O amor, a confiança e a sinceridade presidem a essas reuniões onde todos recolhem as instruções dos mensageiros divinos, onde se aceitam as tarefas que contribuem para elevá-los ainda mais.

Uns seguem a observar o progresso e o desenvolvimento dos globos; outros encarnam nos diversos mundos para cumprir missões de devotamento, para instruir os homens na moral e na Ciência; outros ainda, os Espíritos-guias ou protetores, ligam-se a alguma alma encarnada, a sustentam no rude caminho da existência, conduzem-na do nascimento à morte, durante muitas vidas sucessivas, vindo acolhê-la no termo de cada uma delas, quando entra no mundo invisível. Em todos os graus da hierarquia espiritual, as almas têm um papel a executar na obra imensa do progresso e concorrem para a realização das leis superiores.

Quanto mais o Espírito se purifica, mais intensa, mais ardente nele se torna a necessidade de amar, de atrair para a sua luz e para a sua felicidade, para a morada em que não se conhece a dor, tudo o que sofre, tudo o que luta e se agita nas baixas camadas da existência.

Quando um desses Espíritos adota um de seus irmãos atrasados e torna-se seu protetor, seu guia, com que solicitude afetuosa lhe sustenta os passos, com que alegria contempla os seus progressos e com quanta dor vê as quedas que não pôde evitar!

Assim como a criança descida do berço ensaia seus primeiros passos sob os olhares enternecidos da sua carinhosa mãe, assim também, sob a égide invisível de seu pai espiritual, o Espírito é assistido nos combates da vida terrestre.

Todos temos um desses Gênios tutelares que nos inspira nas horas difíceis e dirige-nos pelo bom caminho. Daí a poética tradição cristã do anjo da guarda. Não há concepção mais grata e consoladora. Saber que temos um amigo fiel e sempre disposto a socorrer-nos, de perto como de longe, influenciando-nos a grandes distâncias ou conservando-se junto de nós nas provações; saber que ele nos aconselha por intuição e nos aquece com o seu amor, eis uma fonte inapreciável de força moral. O pensamento de que testemunhas benévolas e invisíveis vêem todos os nossos atos, regozijando-se ou entristecendo-se, deve inspirar-nos mais sabedoria e circunspecção. É por essa proteção oculta que se fortificam os laços de solidariedade que ligam o mundo celeste à Terra, o Espírito livre ao homem, Espírito prisioneiro da carne. É por essa assistência contínua que se criam, de um a outro lado, as simpatias profundas, as amizades duradouras e desinteressadas. O amor que anima o Espírito elevado vai pouco a pouco se estendendo a todos os seres sem cessar, revertendo tudo para Deus, pai das almas, foco de todas as potências efetivas.

(Léon Denis - Depois da Morte)

Exibições: 557

Comentar

Você precisa ser um membro de RAE para adicionar comentários!

Entrar em RAE

Comentário de Danatiele em 7 outubro 2013 às 10:03

Coisa mais linda!!!! Encantada com a riqueza de informações de um plano tão lindo, puro e perfeito; infelizmente ainda tão longe de mim tamanha minha pequenez. 

Mas a esperança de um dia merecer a existência em um lugar como este, descrito por Léon Denis, já me enche a alma de alegria.

Muita paz à tdos!

APLICATIVO RAETV

Nosso aplicativo para download gratuito no Google Play

ASSOCIE-SE E COLABORE

Artigos Espíritas

Espiritualidade em comportamento de crise (por Jane Maiolo)

Espiritualidade em comportamento de crise

Por Jane Maiolo

 

Então disseram os fariseus entre si: vede que nada é proveitoso! Eis…

Chico Xavier - O servidor

Compartilhamos com os amigos da RAE este belo artigo.

Sds



Atribuem a Mark Twain a citação da seguinte frase: “Não gosto de elogios.
Nunca acho que falaram o…

O custo do abandono emocional (Jane Maiolo)

O custo do abandono emocional 

 

  

 

“Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia”.…

Hipocrisia gourmet: os riscos de uma seita chamada Espiritismo.

Hipocrisia gourmet: os riscos de uma seita chamada Espiritismo.

 

 

E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito:Este povo honra-me com os lábios,Mas o seu coração está longe de mim;…

Pedagogia do silêncio ou talking cure?

Pedagogia do silêncio ou talking cure? 

 

 

 

E ele lhes disse: Que palavras são essas que, caminhando, trocais entre…

Últimas atividades

HEWERTON FERNANDES curtiram a discussão Espiritualidade em comportamento de crise (por Jane Maiolo) de Amigo Espírita
1 hora atrás
Miguel Damato Neto curtiram o evento 5º Encontro Espírita de Inverno de Poços de Caldas de Amigo Espírita
1 hora atrás
ELIAZAR TIAGO SANTOS curtiram o evento Espiritismo e Evangelho de Amigo Espírita
1 hora atrás
Ícone do perfilAngela Nardelli, valdir souza, Jeferson Fraga e mais 2 pessoas entraram em RAE
2 horas atrás
Feeak Minas curtiram a discussão Espiritualidade em comportamento de crise (por Jane Maiolo) de Amigo Espírita
2 horas atrás
Ícone do perfil via Twitter
"Espiritualidade em comportamento de crise (por Jane Maiolo)": https://t.co/qXgqYYo67X
Twitter2 horas atrás · Responder · Retweet
Amigo Espírita adicionou uma discussão ao grupo Artigos Espíritas
Miniatura

Espiritualidade em comportamento de crise (por Jane Maiolo)

Espiritualidade em comportamento de crisePor Jane Maiolo Então disseram os fariseus entre si: vede que nada é proveitoso! Eis que o mundo vai atrás dele.  ¹ As anotações contidas no capítulo 12 do versículo 19 do Evangelho de João nos traz o diálogo dos fariseus sobre a infrutífera armadilha de prender Jesus, que dias antes houvera ressuscitado Lázaro, o amigo de Betânia.…Ver mais...
2 horas atrás
Ícone do perfil via Twitter
"O OFENDIDO - pelo espírito Emmanuel" : https://t.co/ULZbhkMu0P
Twitter3 horas atrás · Responder · Retweet
Ícone do perfil via Twitter
PROJETO PARA AJUDAR A REDE AMIGO ESPÍRITA: Saiba mais: https://t.co/KCYLRbXOf1 Apoie o livro em sua PRÉ-VENDA "Car… https://t.co/Uw83kFpDlW
Twitter3 horas atrás · Responder · Retweet
Posts no blog por ANA MARIA TEODORO MASSUCI
3 horas atrás
Ícone do perfil via Twitter
"PERANTE OS PROBLEMAS DO LAR - (Bezerra de Menezes)" : https://t.co/kTGULqJa62
Twitter4 horas atrás · Responder · Retweet
Ícone do perfil via Twitter
"O Hábito de Rotular Pessoas": https://t.co/L5yuF3kmkA
Twitter4 horas atrás · Responder · Retweet
Alice Moura Costa curtiram a página Regras de Publicação de Amigo Espírita
5 horas atrás
Alice de Paula curtiram o perfil de Alice de Paula
6 horas atrás
Ícone do perfil via Twitter
Os falsos profetas - Evangelho na Rede com Simone Neto, assista pelo youtube https://t.co/EMKDOKDmJU https://t.co/Q4evwuhBF7
Twitter10 horas atrás · Responder · Retweet
Posts no blog por PATRIZIA GARDONA

O Hábito de Rotular Pessoas

O nosso planeta é habitado por vários tipos de criaturas, e entre elas os seres humanos. Plantas e animais apenas vivem.Agem e reagem sobre o meio-ambiente, guiados apenas pelos instintos. Mas o homem existe e pode modificar a sua existência e atuar em seu meio, modificando-o. À medida que o homem evolui ele não apenas existe, mas transcende à própria…Ver mais...
10 horas atrás
Diovani Souza curtiu a postagem no blog QUANDO ENTRAMOS EM ESTADO DE “REVOLTA”, FECHA TODA AJUDA DO ALTO. NÃO TEM COMO AJUDAR... de ANA MARIA TEODORO MASSUCI
19 horas atrás
Jesus Carlos Sanchez Perez e Márcia da Silva Cardoso agora são amigos
19 horas atrás
Ícone do perfil via Twitter
Observemo-nos - Palestra com Roberto César Santos assista pelo youtube https://t.co/o2qdr6ZXQ4 https://t.co/hj9v0NhEqv
Twitter22 horas atrás · Responder · Retweet
Silvia Helena Visnadi Pessenda curtiu o vídeo de Amigo Espírita
22 horas atrás

Regras de uso e de publicação

 

 

Badge

Carregando...

© 2019   Criado por Amigo Espírita.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço