Aparando as próprias rebarbas — Sidney Fernandes

Aparando as próprias rebarbas

Sidney Fernandes

1948@uol.com.br

Por agora, o meu Reino não é daqui.

João, 18:36.

— Esse país não tem mais jeito! — quem assim desabafava era Everaldo, impulsivo e voluntarioso frequentador do Centro Espírita Luz, Amor e Caridade.

— Calma, meu amigo — ponderou Ricardo, experiente diretor da casa, que já bem conhecia o pavio curto do irmão. Não está vendo — continuou — que está em curso, com muita eficiência, o processo das rebarbas ([1])?

— Do que você está falando, Ricardo?

— Veja bem. Você conhece o antigo recurso para limpeza de pregos? Quando eram produzidos, ficava uma rebarba que impossibilitava seu uso e comercialização. Sabe como se sanava essa imperfeição tecnológica?

— Não faço a menor ideia — respondeu já impaciente Everaldo.

— Os pregos eram colocados num grande recipiente que ficava girando durante algum tempo. Com o atrito entre os pregos, eles mesmos se consertavam.

— E o que isso tem a haver com a nossa nação? — perguntou Everaldo.

— Você não está vendo que os irresponsáveis estão se atritando entre eles? Eles estão, entre si, aparando as próprias rebarbas.

— Você está se referindo às delações que estão trazendo à mostra as mazelas dos desequilibrados? Ora, são todos farinha do mesmo saco. E muitos estão ficando incólumes…

— Talvez perante a justiça dos homens. Jamais, porém, diante da justiça de Deus.

***

Lembra Allan Kardec ([2]) como eram frequentes, nos séculos passados, mesmo nas classes mais elevadas e esclarecidas, os atos de barbárie, que hoje tanto nos revoltam. Ontem, como hoje, muitas vidas eram ceifadas e muitos atentados contra as necessidades essenciais dos povos eram cometidos, em que os poderosos esmagavam os fracos e muitos abusos ficavam impunes.

Se pensarmos bem, quantos desses inconsequentes voltaram à Terra e ainda estão entre os homens da sociedade atual? E se refletirmos mais um pouco, chegaremos à conclusão de que muitos desses déspotas da antiguidade éramos nós mesmos, que hoje tanto reclamamos contra as injustiças sociais.

Infelizmente, temos ainda muito do nosso passado para purificar. Daí não podermos nos surpreender com tantas vítimas de acidentes, com tantas catástrofes gerais, simples reflexos do despotismo, do fanatismo, da ignorância e preconceito que semeamos no passado e foram deixados como dívidas a serem quitadas pelas gerações futuras.

Estamos simplesmente diante de contas, que parecem imerecidas, porque vemos apenas o momento atual, mas que devem ser liquidadas.

 A justiça de Deus atinge sempre o culpado, e por ser algumas vezes tardia, ela não deixa de seguir o seu curso ([3])

***

Diz Emmanuel ([4]), referindo-se às crises, dificuldades e desregramentos do mundo, que às vezes nos sentimos como folhas inertes diante das convulsões da torrente. A Terra parece uma casa em reforma, atormentada com a reformulação de seus valores.

Não nos esqueçamos, continua Emmanuel, de que o mundo é o mundo, e de que nós somos nós mesmos. Entre o passageiro e o comboio que o transporta, há singulares e inconfundíveis diferenças. Se o veículo ameaça desastre, é possível que o viajante, dentro dele, se converta em ponto de calma, irradiando equilíbrio.

Assim também em nosso planeta e em nosso país.

Façamos o nosso melhor para auxiliar os que estão à nossa volta, convertendo-nos em preciosos elementos de equilíbrio, contribuindo, com a nossa renovação de comportamento, em escaleres salvadores, diante dos atuais mares tormentosos.

O deserto é, por vezes, imenso; no entanto, bastam algumas fontes isoladas entre si para garantirem a jornada segura através dele.

Emmanuel

Tenhamos em conta que todos somos corresponsáveis pela indisciplina e pela desordem atualmente existentes. Lá atrás, muitos de nós fomos os semeadores do caos. Agora chega o momento de calafetarmos as brechas abertas e desbastarmos as próprias rebarbas.

 

([1]) – Um jeito de ser feliz, de Richard Simonetti.

([2]) – Capítulo VIII, segunda parte de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec.

([3]) – Capítulo VIII, segunda parte de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec.

([4]) – Encontro marcado, de Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier.

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