Corporativismo mediúnico?

Verifica-se a incompreensão do que seja mediunidade, anexada ao desejo do autoritarismo.

Roberto Vilmar Quaresma | robertovilmarquaresma@gmail.com

 

Estruturas espíritas tornam-se inabaláveis quando são cercadas pelos apontamentos, insofismáveis, da Codificação da Doutrina Espírita. Qualquer desvio, o mínimo traço fora das recomendações do Espírito de Verdade, acarreta sensíveis transtornos, com a permissibilidade de graves interferências perniciosas, levando, irremediavelmente, para caminhos impróprios os movimentos que se mantinham fertilizados pela certeza do progresso espiritual, assegurado pelas orientações da Doutrina dos Espíritos.

Grupos e indivíduos em desalinho, portanto, não preparados evangelicamente por se encontrarem à margem de estudos das orientações doutrinárias, em conformidade com a atualidade terrena, têm promovido turbulências em grandes proporções em inúmeras casas espíritas, implantando a desarmonia e abrindo a “porta larga”[1].

Todavia, tal acontece porque nessas casas encontram as facilidades impostas pelos seus dirigentes que, por sua vez, também, colocam-se afastados das verdades da Codificação do Espiritismo, e dos aconselhamentos trazidos, constantemente, pelos benfeitores espirituais.

Não compreenderam que os Livros da Codificação traduzem orientações e instruções de Jesus e, em sendo Jesus nosso guia e modelo, nada deve ser modificado; contudo, as essências neles contidas precisam ser condicionadas à luz dos dias atuais, entretanto, mantendo os mesmos princípios da verdade; esta jamais deve sofrer quaisquer alterações ou interferências.

Os conteúdos desses livros, para que não sejam promovidos desvios, precisam ser observados e estudados, constantemente, com a vontade de entendê-los, para penetrar nas energias contidas nas estruturas verbais, e adaptá-los e qualificá-los para as horas hodiernas. Este procedimento constrói barreiras magnéticas capazes de anular quaisquer influências descompostas, que se aventurem a mobilizações impróprias às razões evangélicas; e mais, além da proteção fluídica o Ser permanece em sintonia com os benfeitores espirituais que o assistem, operando na intimidade dos pensamentos.

Observam-se, nos momentos atuais, comunidades formadas por pessoas inabilitadas, cujo degenerado teor perceptivo é obscurecido pelo orgulho e desmedida vaidade, que aventam; tornando-se joguetes de espíritos detratores, fomentam ideias equivocadas no intuito de induzir pessoas no circuito em que atuam à famigerada implantação de um possível corporativismo mediúnico. Isto é, os grupos mediúnicos das casas espíritas passariam a obedecer às regras traçadas por um Comando Central. Ora, a casa assim como cada médium têm mediunidades específicas a serem desenvolvidas e trabalhadas; jamais se pode atrelar casas espíritas e médiuns a regras únicas, pois, assim como não há espíritos iguais, obviamente não existem mediunidades iguais. Semelhantes, sim. Porém, o que é semelhante contém detalhes específicos e variados, e precisam ser observados e respeitados; nunca cumprirem determinada formatação e regidos por lamentáveis regras delimitadoras.

Verifica-se a incompreensão do que seja mediunidade, anexada ao desejo do autoritarismo, pois, ambicionar padronizar o que é específico e único em cada espírito, é o mesmo que impor a todos os espíritos assumirem exatamente o mesmo nível evolutivo, situação plenamente impossível.

Mediunidade é condição especialíssima em cada Espírito. Allan Kardec revela: “Não há nenhum sinal pelo qual se reconheça a existência da faculdade mediúnica; só a experiência pode revelá-la”[2]. Sem este propósito não há quem seja capaz de identificá-la; e mais, como já dito, a mediunidade opera na intimidade do pensamento, para, após, manifestar-se corporalmente, quando necessário. Em muitas ocasiões a comunicação apenas se dá na profundeza do médium, sem qualquer exteriorização que a identifique. O médium agirá com ações comuns, viabilizando a orientação recebida, ou não.

Evidentemente, estas percepções somente serão sentidas pela sensibilidade dos estudiosos. Aqueles que simplesmente fazem uso da observação sem os conhecimentos já trazidos à luz pelo Espiritismo mergulham no abismo do erro, porque mediunidade não é vestimenta exterior, mas sim, faculdade que tem os seus mecanismos no âmago da alma, com seus efeitos transferidos para o perispírito e com a informação apresentada pelo corpo físico; todavia, com certos detalhes, porque nem tudo o que a mediunidade revela nas informações é a totalidade do processo nos eventos. Muitas revelações são destinadas ao trabalho do médium, e estas ficam em segredo para as suas devidas ações, sem a necessidade de ser expostas ou comentadas.

A mediunidade, como já visto, é individualizada e não carece de padronização, como esperam conseguir pessoas que ambicionam impor seus domínios em casas espíritas que apresentam a falta de conhecimento, assim como elas.

Ora, como imprimir um mesmo desenvolvimento a faculdades que se apresentam segundo a evolução e as necessidade de cada alma? Se bastante não fosse, o organismo físico foi biologicamente estruturado para determinado tipo de mediunidade, de acordo com as necessidades a serem manipuladas na presente encarnação, e estas foram pautadas quando da elaboração da programação reencarnatória ou mapa de provas úteis, como cita André Luiz em Missionários da Luz, capítulo 13[3]. Se tal condição, perniciosa, é acionada, é o mesmo que querer impor ao Universo que os mundos obedeçam a uma única pauta exclusiva de desenvolvimento, sem ser considerado o nível evolutivo no qual se encontrem. Obediência completamente inaceitável, jamais seria cumprida; nunca obteria êxito.

Situação facilmente compreensível: cada mundo está em um patamar na escala da lei do progresso; e mais, lá encontra-se uma população hospedada onde cada membro ostenta um grau espiritual de desenvolvimento. Não há a mínima condição para estabelecimento de uma única pauta educativa; a movimentação é complexa e somente planejada e colocada em execução por espíritos, encarnados ou desencarnados, estudiosos e especializados em diagnosticar estruturas íntimas.

Pois bem, os grupos ou aqueles que individualmente vêm tentando estabelecer um corporativismo mediúnico, para que possam ter o domínio das ações e concretizarem os seus critérios perniciosos de comando, é bom que desistam da alçada, porque mediunidade é faculdade doada por Deus de acordo com as necessidades de cada alma, como já verificado, e ninguém é capaz de modificar as características configuradas; poderá sim, prejudicar suas investidas, desviando-as, fazendo com que aconteçam de maneiras indevidas e equivocadas. Porém, se alguém assim agir, assume a responsabilidade do mal proporcionado, e assinala em sua pauta reencarnatória as ações controvertidas, para, futuramente, com novas ações eliminar os efeitos maléficos construídos, corrigindo-se.

Mediunidade é faculdade da alma que se projeta nos seus instrumentos de trabalho – perispírito e corpo físico –, predisposta para a sua ascensão na diretriz do progresso a caminho da perfeição. Por estes principais motivos, a atenção à manifestação da qualidade mediúnica deve ser respeitada sem quaisquer imposições para modificá-la, mas sim, com todo carinho, educá-la e aprimorá-la.

Os estudiosos da Codificação da Doutrina dos Espíritos conhecem e sabem lidar com as condições mediúnicas de cada indivíduo. Sabem que em não havendo duas almas iguais, impossível existir mediunidades iguais.

Daí fica mais do que constatada a falta de conhecimento e aprendizado, por estudos mal feitos ou, quem sabe, por necessidades pessoais de satisfação promovida pelo orgulho, filho dileto do egoísmo, a tentativa de estabelecer um ineficaz corporativismo mediúnico, a fim de imprimir as falsas verdades individuais.

Tenhamos, finalmente, então, o cuidado de não permitirmos que indivíduos inescrupulosos se infiltrem nas estruturas bem direcionadas das nossas casas espíritas. Para tanto, sejamos estudiosos contumazes da Doutrina Espírita, e estejamos atualizados, isto é, os conhecimentos e aprendizados devem ser adaptados e aplicados considerando a luminosidade dos novos dias.

1. Mateus 7:13 – Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela.

2. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2ª Parte. Cap. II – 62.

3. XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz. Pelo espírito André Luiz. FEB.

O autor é engenheiro aposentado, pós-graduado em Administração. Atua como médium e expositor no Centro Espírita Léon Denis (CELD) e é autor do livro “Coisas da vida na visão espírita”, Ed. O Clarim.

Extraído de: Quaresma, Roberto Vilmar. Corporativismo mediúnico? Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCII. N. 3. Abril de 2017. P. 123-124.

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