Festas natalinas, comércio e arbítrio. Cristina Saraff


Há os que se alegram e os que se entristecem nessa época. Cada um por seus motivos.
Muitos dizem: agora é tudo comercial! Na minha época…
Mas se a pessoa está viva, essa não é a sua época? 40, 50 ou mais anos de vida, não nos tiram o fato de que essa época seja também nossa, por mais diferente que seja em relação aquela em que éramos crianças ou adolescentes. Quando, provavelmente, o Natal era comemorado de modo mais católico, mesmo em famílias espíritas…
Como era mesmo a comemoração do Natal em sua infância e adolescência? Você lembra? Sem saudosismo nem idealismo, era uma homenagem a Jesus ou uma festa mais religiosa?
Como as pessoas se manifestavam em relação a data? Como você sentia e pensava? Alegrias? Medos?
O que era mais importante e significativo para você, então? Jesus, o peru assado ou os presentes? De verdade!!!
Hoje, sim, é uma festa e uma época socialmente bastante comerciais; o Papai Noel e os presentes ocupam o centro das atenções, mas não se resume nisso, dependendo para onde olhemos…
Esse é o nosso tempo também, e mesmo sendo como é, não podemos mesclar as coisas e tornar essa comemoração mais coerente conosco, sem ter que negá-la, ficar sofrendo ou fingindo satisfação?
Porque, em nome de Jesus, do Papai Noel ou de nada, há sempre um estímulo à solidariedade, que é parente da fraternidade, um dos pontos de destaque dos ensinos cristãos.
Há! Mas é tudo comercial!
Sim, mas você, no recôndito de sua alma e do seu lar, não pode aproveitar a época para trabalhar, um pouco que seja, os recursos pessoais de solidariedade e fraternidade? Pode, não pode, quer ou não quer?
Essas festas, datas comemorativas são semelhantes ao dia do seu aniversário: nada estratosférico, perfeito, maravilhoso e inquestionável, mas tudo de especial, se você flexibilizar sua alma e lhes der um significado.
O ser humano precisa de estímulos que o lembrem e ajudem a desenvolver sentimentos, maturação e ampliação das características pessoais. Por isso, há o dia das mães, das crianças, do índio, dos enfermeiros e muitos, muitos outros. É para se por atenção, dar valor e também para que o homenageado sinta sua importância e valor pessoal, familiar e social.
Jesus precisa de homenagens ou nós é que precisamos desenvolver qualidades exemplificadas por ele? Daí um dia destinado… que algum dia não mais existirá.
Essas qualidades eram/foram desenvolvidas nas pessoas, pelas comemorações religiosas? Ou cobradas?
As pessoas do passado próximo ou remoto, quando o Natal lembrava mais de Jesus, eram melhores do que somos, na linha geral?
Caso possamos ser, pelo menos iguais em qualidades às pessoas do passado ou às mais idosas dos dias atuais, como pode ser isso, se hoje o Natal é muito mais comercial?
Será que precisamos que toda a sociedade se comporte de um certo jeito, para também o fazermos?
Aliás, porque os comerciantes, industriais, governos, povo… as outras pessoas, deveriam ser exemplos de desprendimento, ideais elevados e caráter ilibado? Quem critica e condena é tudo isso? Estamos ou não, todos em processo evolutivo?
Kardec deixou expresso que aquele que se julgue melhor, deva ser o mais fraterno, solidário e de melhores sentimentos e atos!
Pontos a serem pensados…
Se usamos celular, facebook e e-mail, cujas regras precisam ser seguidas, isso nos torna piores ou melhores? Porque então, não aproveitar a época de Natal para se alegrar com os enfeites nas ruas, com a sensação de que há algo diferente no ar, com o convite, mesmo comercial, para a revisão dos preconceitos, das idiossincrasias e do uso da própria inteligência, no aproveitamento das circusntâncias que a vida atual nos proporciona?
Porque o problema com essa data, se outras são aceitas, mesmo com peso comercial?
Poderá ser que a dificuldade seja em relação ao que as pessoas sentem por Jesus? Com assim? Bem…
Se o entendimento é de que ele seja um ser divino que socorre os pobres humanos, e olha os méritos de cada um, ou seja, a conduta dentro das regras religiosas, então, seria melhor que o Natal continuasse a ser comemorado de forma bem religiosa. Como, por sinal o é, em determinados núcleos e grupos sociais.
Caso as pessoas estejam cansadas e decepcionadas com essa ilógica figura divinizada-chicote, com a qual a sociedade é amedrontada e contida, sob ameaça de não haver salvação sem a estrita obediência ao que dizem que Jesus quer, então, é melhor que o Papai Noel ocupe o Natal e que a festa seja comercializada e “pagã”.
Para quem Jesus é um Espírito mais elevado, que deixou lições instrutivas e edificantes, que diferença faz o modo como uns e outros pensem e comemorem o Natal?
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NOTA ilustrativa:
“ … o jornal do Vaticano L’Osservatore Romano, em 2004, publicou o seguinte: “A verdadeira data do nascimento de Jesus, do ponto de vista histórico, está encoberta sob um manto de incerteza no que diz respeito à história romana, ao censo imperial daquele tempo e às pesquisas realizadas nos séculos posteriores. . . .
A data de 25 de dezembro, como bem se sabe, foi escolhida pela Igreja de Roma no quarto século. Na Roma pagã, essa data era dedicada ao deus-sol . . .
Embora o cristianismo já tivesse sido reconhecido em Roma por meio de um Decreto de Constantino, o mito do deus-sol ainda era bem difundido, em especial entre os soldados.
As já mencionadas festividades, centralizadas em 25 de dezembro, estavam profundamente arraigadas na tradição popular. Isso deu à Igreja de Roma a ideia de conferir a esse dia um significado religioso cristão, substituindo o deus-sol pelo verdadeiro Sol da Justiça, Jesus Cristo. Essa data foi então escolhida para comemorar o seu nascimento.”
Em relação a árvore de Natal, costume que começou na Alemanha no século 16, L’Osservatore Romano comentou: “A Itália foi um dos últimos países a aceitar a árvore de Natal, em parte por causa de um rumor generalizado de que o uso de árvores de Natal era um costume protestante e, por isso, devia ser substituído pelo presépio [a cena da Natividade]…. O Papa Paulo VI começou a tradição de colocar [na Praça de São Pedro, Roma] uma grande árvore de Natal próximo à cena da Natividade…”

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