Com todo o apreço que lhes devemos, é preciso considerar que são vanguardeiros do progresso, sem serem infalíveis. São grandes almas em abençoado processo de sublimação, credoras de nossa reverência pelo grau de elevação que já conquistaram, contudo, são Espíritos ainda ligados à Humanidade terrena e em cujo seio se corporificarão, de novo, no futuro, através do instituto universal da reencarnação, para o desempenho de preciosas tarefas.
        Não são luminares isentos de errar. Não podemos exigir deles qualidades que somente transparecem dos Espíritos_que_já_atingiram_a_sublimação_absoluta. São altos expoentes de fraternidade e conhecimento superior, porém, guardam ainda consigo probabilidades naturais de desacerto. Primam pela boa-vontade, pela cultura e pelo próprio sacrifício no auxílio incessante aos companheiros reencarnados, mas podem ser vítimas de equívocos, que se apressam, contudo, a corrigir, sem a vaidade que, em muitas circunstâncias, prejudica os doutos da Terra. Compreendem que algo sabem, mas esse algo é muito pouco daquilo que lhes compete saber. Entregam-se, desse modo, a preciosas cruzadas de serviço e, dentro delas, ajudam e aprendem. Auxiliam e são auxiliados. Não poderia ser de outro modo. Sabemos que o milagre não existe como derrogação de leis da Natureza. Somos irmãos uns dos outros, evolvendo juntos, em processo de interdependência, no qual se destaca o esforço individual.
Como o dizem formalmente os dois ilustres discípulos de Sócrates, Platão e Xenofonte, aquele pretendia ter um gênio familiar, um demônio, que lhe predizia o futuro e algumas vezes lhe ditava normas de vida. O próprio Sócrates pensava que esse ser lhe era estranho, diferente dele, porque lhe revelava coisas desconhecidas. Esse demônio é o que em linguagem espírita de chama um guia.

        No Teeteto, Platão faz Sócrates dizer: Depois da minha meninice, graças ao favor celeste, sou sempre acompanhado por um ser quase divino, cuja voz me desaconselha algumas vezes de empreender qualquer coisa, porém nunca me leva a praticar essa ou aquela ação. Conheceis Carmído, o filho de Glauco. Um dia ele me disse que queria disputar o prêmio dos jogos de Nemeu... Procurei dissuadir Carmido de sua pretensão, dizendo-lhe: Enquanto você me fala, ouço a voz divina...Não vá a Neméia! Não quis dar-me ouvidos! Pois bem, ficai sabendo que ele morreu!"

        Na Apologia de Sócrates, Xenofonte lhe põe na boca o seguinte: "Esta voz profética que se me dá a entender em todo o curso de minha vida: certamente é mais autêntica do que os presságios tirados do vôo ou das entranhas dos pássaros: chamo-lhe Deus ou Demônio (Theóos e daemon). Comuniquei aos meus amigos os avisos que recebi e até o presente a sua voz nunca me disse nada que fosse inexato".

        Aí está um ponto sobre o qual Sócrates insistiu por muitas vezes. As predições do seu gênio familiar foram sempre verificadas.

        A história do demônio de Sócrates era, em toda a Antiguidade, muito bem conhecida nos seus pormenores.

        Escreve Plutarco: "Sócrates, tendo um entendimento puro e claro, era muito sensível ao que o atingia, e o que o atingia podemos conjeturar que era não uma voz ou um som, mas a palavra de um demônio que, sem voz, lhe tocava na parte_inteligente_da_alma. As inteligências dos demônios, tendo a sua própria luz, brilhavam para aqueles que eram suscetíveis e capazes de tal clarão, não tendo necessidade nem de nomes nem de verbos, dos quais os homens fazem uso quando falam uns com os outros, e por intermédio dos quais eles vêem as imagens das inteligências uns dos outros; mas não conhecem as próprias inteligências senão aqueles que têm uma luz própria, divina.

        Sócrates, quando ouvia essas vozes, não continuava na sua conversação, sustava a caminhada, dizendo, para explicar o seu proceder, que acabava de ouvir a voz de Deus.
Fontes:
Livro: "Nos Domínios da Mediunidade", de André Luiz, pelo Médium Chico Xavier;
"Tratado de Metapsíquica", de Charles Richet, 1922;

Romeu L. Wagner, Belém, Pará

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