O ENSINO MORAL LEGADO POR JESUS, OS ROMANCES ESCRITOS POR EMMANUEL E NÓS

O ENSINO MORAL LEGADO POR JESUS, OS ROMANCES ESCRITOS POR EMMANUEL E NÓS

 

Flávio Rey de Carvalho*

 

No início da introdução de O evangelho segundo o espiritismo, Allan Kardec delimitou que é possível dividir as matérias contidas nos Evangelhos em cinco partes, destacando-se, entre elas, o “ensino moral”, por não ser objeto de controvérsias e se manter inatacável. Conforme ele explicou:

 

Diante desse código divino a própria incredulidade se inclina; é terreno onde todos os cultos podem se reencontrar, a bandeira sob a qual todos podem se abrigar, quaisquer que sejam as suas crenças, porque jamais foi objeto de disputas religiosas, sempre e por toda parte levantadas pelas questões do dogma; aliás, discutindo-as, as seitas encontrariam aí sua própria condenação, porque a maioria está mais interessada na parte mística do que na parte moral que exige a reforma de si mesmo. Para os homens em particular é uma regra de conduta abrangendo todas as circunstâncias da vida, privada ou pública, o princípio de todas as relações sociais fundadas sobre a mais rigorosa justiça; é, enfim, e acima de tudo, o caminho infalível para a felicidade esperada, um canto do véu levantado sobre a vida futura.[1]

 

Mais adiante no texto, destacando o importante papel desempenhado pelos espíritos no restabelecimento do sentido verdadeiro do ensino moral legado por Jesus, Kardec vaticinou:

 

Graças às comunicações estabelecidas, de hoje em diante de um modo permanente, entre os homens e o mundo invisível, a lei evangélica, ensinada a todas as nações pelos próprios Espíritos, não será mais letra morta, porque cada um a compreenderá, e será incessantemente solicitado a praticá-la pelos conselhos de seus guias espirituais. As instruções dos Espíritos são verdadeiramente as vozes do céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho.[2]

 

É no cumprimento dessa previsão feita por Kardec que se insere a obra do médium Francisco Cândido Xavier (1910-2002), que, sob a supervisão do Espírito Emmanuel, publicou, enquanto encarnado, 427 livros psicografados, abrangendo vasta gama de autores espirituais. Entre estes, destaca-se o próprio Emmanuel, autor de mais de uma centena de livros que tocam, sobretudo, temáticas ligadas à difusão e à compreensão do evangelho à luz do espiritismo. Sua produção é bastante ampla, abrangendo desde a elaboração de obras compostas de comentários a trechos do Novo testamento - como, por exemplo, os títulos que compõem a Série fonte viva -, livros de perguntas e respostas – entre eles, O consolador (1940) -, textos ensaísticos – como A caminho da luz (1938), entre outros -, até a escrita de cinco romances históricos, em torno dos quais se centra o presente artigo.[3]

São eles: Há dois mil anos (1939) - centrado no século I -, Cinquenta anos depois (1939) - retratando fatos ocorridos no século II -, Paulo e Estevão (1941) - detalhando acontecimentos que se deram no século I -, Renúncia (1942) - abrangendo vivências que perpassaram a segunda metade do século XVII e o início do XVIII - e Ave, Cristo! (1953) - envolvendo experiências de vida ligadas ao século III.[4] Esses cinco livros, em termos centrais, têm o objetivo de nos sensibilizar para a importância de se assimilar a essência do ensino moral, legado por Jesus, no nosso proceder cotidiano. Neles são narradas histórias de vida, que retratam, em termos práticos e bastante detalhados, como se deram as relações de personagens “reais” – cada qual conforme o seu grau de amadurecimento e conscientização espiritual - com os princípios morais cristãos.

Por meio da evidenciação dessas relações, Emmanuel objetivou apresentar exemplos de vivências, para nos servir de roteiro e fonte de inspiração, para que possamos - cada qual em seu devido tempo de maturação e segundo suas próprias possibilidades - aclimatar e cultivar a flor viva do evangelho em nossas mentes e em nossos corações. Além de apresentar a vida de personagens portadores de uma conduta moral exemplar, já bastante iluminados e conscientes da necessidade de se viver alinhado ao bem e à vontade de Deus, são também descritas algumas trajetórias reencarnatórias de espíritos que, assim como nós, estão imersos em processos depurativos de resgate e reparação. Tais trajetórias, por estarem mais próximas da nossa condição espiritual, nos auxiliam, em função da evidenciação dos acertos e dos erros praticados por esses espíritos, a detectar, por meio do estabelecimento de uma comparação analógica, aspectos negativos e positivos, passíveis de serem modificados e aprimorados, que podem (ou não) integrar nossa personalidade.

Nesse sentido, é por meio da evidenciação dos mecanismos da lei de causa e efeito, que tais histórias nos convidam a refletir acerca de nós mesmos, assim como da nossa situação espiritual, estimulando-nos à realização da reforma íntima, de modo a acelerar a nossa marcha ascensional em termos espirituais. Sob esse prisma, os romances escritos por Emmanuel emergem como obras de estudo que auxiliam na compreensão e na operacionalização da essência do ensino moral, legado por Jesus, em nossas vidas. Desse modo, ao estudá-los, cada um pode fazer um exercício de auto-análise, buscando se situar, empaticamente, nas situações vivenciadas pelos personagens com os quais nos sintamos mais identificados.

Para explicar melhor o modo de se estabelecer essa relação de empatia com os personagens descritos nas narrativas, recorre-se ao livro Luz imperecível – coordenado por Honório Onofre de Abreu (1930-2007) –, no qual consta a seguinte explicação:

 

Incorporando-nos às figuras do próprio texto, habilitamo-nos a detectar em nós próprios, padrões ou atitudes, de ordem positiva ou negativa que lhes eram peculiares [(àqueles personagens que viviam naquelas épocas]), a nos sugerirem [(hoje)] implementação de recursos ou mudanças de base, nas profundezas da alma. A partir daí o texto vivifica. Pela auto-análise e na aplicação do “conhece-te a ti mesmo” levantamos caracteres peculiares àqueles personagens e que podem ou não estar presentes em nossa intimidade, tais sejam: hipocrisia, extremismo fanatizante, conhecimento não acionado, cegueira, paralisia ou surdez espirituais, ou quem sabe, nossa posição cadaverizada na indiferença ou na cristalização ante a dinamização da via.[5]

 

Por meio dessa introspecção nos é facultado, dentro dos parâmetros do livre arbítrio, promover mudanças em nossa mente e em nosso coração, afinando-os – em tudo aquilo que estiver dissonante - pelo diapasão da lei de amor, que é a força que rege e harmoniza o universo. Salvo exceções, tratar-se-ia de algo ainda por se fazer entre nós, pois, segundo consta explicado em A caminho da luz, o desenvolvimento do “homem espiritual” – ligado à esfera do sentimento - jaz estacionado em seus surtos de progresso, grosso modo, desde o século IV, quando houve a adaptação dos ensinamentos de Jesus às conveniências e aos interesses do mundo, apartando-os da sua essência divina e redentora. Mas, conforme afirmou Emmanuel, “[...] é chegado o tempo de um reajustamento de todos os valores humanos.”[6]

Diante dessas explicações e à guisa de conclusão, reitera-se a importância de se realizar o estudo dos romances escritos por Emmanuel, tidos como obras que - assim como outras tantas produzidas por esse autor espiritual - confirmam, ao menos em termos potenciais, aquilo que Kardec previra na introdução de O evangelho segundo espiritismo, isto é, o intercâmbio entre os homens e o mundo invisível daria condições para que cada indivíduo pudesse compreender e praticar o ensino moral contido na lei evangélica. Quando isso ocorrer, a lei evangélica deixará de ser “letra morta”, pois, extrapolando as páginas dos livros nos quais está contida, passará a viver na mente, no coração e nas atitudes das pessoas. Para tanto, conforme aconselhou Paulo de Tarso, na Carta aos Efésios, é necessário que “[...] vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; e vos renoveis no espírito da vossa mente; e vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade.” (Ef, 4:22-24).[7]

 

(Artigo transcrito de: Revista internacional de espiritismo. Ano XCII. No. 3. Abril de 2017. P.146-148)



* Doutorando em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Membro fundador do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Evangelho da Federação Espírita Brasileira (NEPE-FEB). Integrou a Comissão Administrativa do NEPE-FEB, entre setembro de 2012 e março de 2015.

[1] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 365. ed. Araras: IDE, 2009, p. 6, grifo nosso.

[2] Ibid., p. 8, grifo no original.

[3] Os livros mencionados, incluindo os cinco romances, cujos títulos estão listados no parágrafo seguinte, são editados pela Federação Espírita Brasileira (FEB).

[4] Para a datação dos livros supracitados – incluindo os títulos mencionados no parágrafo anterior -, optou-se por considerar o ano em que cada um deles foi concluído pelo autor espiritual, conforme consta indicado no final de cada uma das introduções presentes nessas obras.

[5] ABREU, Honório Onofre de (Org.). Luz imperecível: estudo interpretativo do evangelho à luz da doutrina espírita. 6. ed. Belo Horizonte: UEM, 2009, p. 23, grifo nosso.

[6] Cf. XAVIER, Francisco Cândido. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 37. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 256-257.

[7] A BÍBLIA SAGRADA: contendo o Velho e o Novo Testamento. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Edição corrigida e revisada fiel ao texto original. São Paulo: SBTB, 2013.

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