VICIAÇÃO ALCOÓLICA - Joanna de Ângelis

Sob qualquer aspecto considerado, o vício — esse condicionamento pernicioso que se impõe como uma "segunda natureza" constritora e voraz - deve ser combatido sem trégua desde quando e onde se aloje

Classificado pela leviandade de muitos dos seus aedos como de pequeno e grande porte, surge com feição de "hábito social" e se instala em currículo de longo tempo, que termina por deteriorar as reservas morais, anestesiando a razão e ressuscitando com vigor os instintos primevos de que se deve o homem libertar.

Insinuante, a princípio perturba os iniciantes e desperta nos mais fracos curiosa necessidade de repetição, na busca enganosa de prazeres ou emoções inusitados, conforme estridulam os aficionados que lhe padecem a irreversível dependência.

Aceito sob o acobertamento da impudica tolerância, seu contágio destrutivo supera o das mais virulentas epidemias, ceifando maior número de vidas do que o câncer, a tuberculose, as enfermidades cardiovasculares adicionados... Inclusive, mesmo na estatística obituária dessas calamidades da saúde, podem-se encontrar como causas preponderantes ou predisponentes as matrizes de muitos vícios, que se tornaram aceitos e acatados qual motivo de relevo e distinção...

Os vitimados sistemáticos pela viciação escusam-se abandoná-la, justificando que o seu é sempre um simples compromisso de fácil liberação em considerando outros de maior seriedade que, examinados, a sua vez, pelos seus sequazes, se caracterizam, igualmente, como insignificantes.

Há quem a relacione como de consequência secundária e de imediata potência aniquilante. Obviamente situam suas compressões como irrelevantes em face de "tantas coisas piores"... E argumentam: "antes este", como se um mal pudesse ter sopesadas, avaliadas e discutidas as vantagens decorrentes da sua atuação...

Indiscutivelmente, a ausência de impulsão viciosa no homem dá-lhe valor e recursos para realizar e fruir os elevados objetivos da vida, que não podem ser devorados pela irrisão das vacuidades.

A vinculação alcoólica, por exemplo, escraviza a mente, desarmonizando-a, e envenena o corpo deteriorando-o. Tem início através do aperitivo inocente, quão dispensável, que se repete entre sorrisos e se impõe como necessidade, realizando a incursão nefasta, que logo se converte em dominação absoluta, desde que aumenta de volume na razão direta em que consome.

Os pretextos surgem e se multiplicam para as libações: alegria, frustração, tristeza, esperança, revolta, mágoa, vingança, esquecimento... Para uns se converte em coragem, para outros em entusiasmo, invariavelmente impondo-se, dominador incoercível. Emulação para práticas que a razão repulsa, o alcoolismo faz supor que sustenta os fracos, que tombam em tais urdiduras, quando, em verdade, mais os debilita e arruína.

Não fossem tão graves, por si só, os danos sociais que dele decorrem — transformando cidadãos em párias, jovens em vergados anciãos precoces, profissionais de valor em trapos morais, moçoilas e matronas em torpes simulacros humanos, aceitos e detestados, acatados e temidos nos sítios em que se pervertem, a caminho da total sujeição, que conduz, quando se dispõe de moedas, a Sanatórios distintos e em contrário, às sarjetas hediondas, em ambos os casos avassalados por alienações dantescas —, culmina em impor os trágicos autocídios, por cujas portas buscam, tais enfermos, soluções insolváveis para os problemas que criaram espontaneamente para si próprios... Não acontecendo a queda espetacular no suicídio, este se dá por processo indireto, graças à sobrecarga destrutiva que o alcoólatra ou simples cultivador da alcoolofilia depõe sobre a tecelagem de elaboração divina, que é o corpo. E quando vem a desencarnação, o que é também doloroso, não cessa a compulsão viciosa, nascendo dramas imprevisíveis do outro lado do túmulo, em que o espírito irresponsável constata que a morte não resolveu os problemas nem aniquilou a vida...

Nesse capítulo convém considerarmos que a desesperada busca ao álcool ou substâncias outras que dilaceram a vontade, desagregam a personalidade, perturbam a mente e pode ser, às vezes, inspirada por processos obsessivos, culminando sempre, porém, por obsessões infelizes, de consequências imprevisíveis.

A pretexto de comemorações, festas, decisões, não te comprometas com o vício.

O oceano é feito de gotículas e as praias imensuráveis de grãos.

Liberta-te do conceito: "hoje só", quando impelido a comprometimento pernicioso e não te facultes: "apenas um pouquinho", porquanto, uma picada que injeta veneno letal, não obstante em pequena dose, produz a morte imediata.

Se estás bafejado pela felicidade, sorve-a com lucidez.

Se te encontras visitado pela dor, enfrenta-a, abstêmio e forte.

Para qualquer cometimento que exija decisão, coragem, equilíbrio, definição, valor, humildade, estoicismo, resignação, recorre à prece, mergulhando, na reflexão, o pensamento, e haurirás os recursos preciosos para a vitória em qualquer situação, sob qual seja o impositivo.

Nunca te permitas a assimilação do vício, na suposição de que dele te libertarás quando queiras, pois que se os viciados pudessem querer não estariam sob essa violenta dominação.

(De “Após a tempestade”, de Divaldo P. Franco, pelo Espírito Joanna de Ângelis)

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Comentário de Raquel Eilert em 14 abril 2012 às 22:06

Imagino o quão difícil seja vencer todas as barreiras,começando pelo próprio preconceito para se auto-reconhecer dependente ou viciado como diz o amigo e este é o primeiro passo para a cura,não é mesmo?Como ex-fumante,sei como é difícil largarmos um vício .O cigarro não é mais tão aceito socialmente mas quando parei de fumar não havia todo este movimento de conscientização que há hoje e foi pela perseverança e fé também que consegui parar pois eu queria muito ser passista e não me foi permitido pois estaria passando energias viciadas para as pessoas que receberiam meu passe.Então a fé e a vontade de ajudar meus irmãos me ajudou a me livrar do fumo.

Não sei a Bíblia para citar mas no Senhor Nosso Deus podemos Tudo .E é esta certeza que dá um sentido maior à minha vida!

Comentário de José Walderico P. de Lemos Filho em 14 abril 2012 às 20:49

É PRECISO MUITA FÉ EM DEUS PARA SE TER A HUMILDADE DE SE AUTORRECONHECER UM ALCOÓLATRA. ESSE VÍCIO POR SER ACEITO SOCIALMENTE, FAZ COM QUE O VICIADO RELUTE ABANDONÁ-LO SOB A IDEIA DE AO FAZÊ-LO ESTARIA ASSUMINDO SUA INCAPACIDADE DE TER UMA     PRÁTICA "NORMAL" AOS ENCONTROS E MOVIMENTOS SOCIAIS.

Comentário de Salomão Raia em 14 abril 2012 às 20:38

Excelente.

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