NÃO REVIDAR “Auto de Fé de Barcelona”

NÃO REVIDAR

“Auto de Fé de Barcelona”

 

(Alfredo Zavatte)

A tarefa não é fácil. Aliás, nunca foi. Mas, parece que o mundo está passando por mudanças, que temos a obrigação de observar e adaptar para a correção do leme do nosso barco, pois o vento muda sempre e torna-se essencial, para nossa proposta de vida, aprender continuamente, alimentando nosso espírito com a mesma dignidade que nossos antepassados nos ensinaram.

 

Nem sempre revidar a ofensa a que somos acometidos é a melhor solução. Muitos poderão até achar estranha esta colocação, principalmente nos dias atuais, onde parece que ser honesto está fora de moda e agir corretamente é vergonhoso. O mundo parece ter virado do avesso: o que era certo antigamente, hoje parece estar errado e o que era errado, hoje parece estar certo.

 

“Temos que aceitar os nossos erros, temos que nos reinventar, temos que aprender a virar a página da vida e estarmos sempre preparados para começar um novo capítulo.”

 

Um grande feito histórico na divulgação da Doutrina dos Espíritos, que nos convida à reflexão e nos traz para a realidade.

 

Deixamos bem claro que nada neste texto foi anotado. O fato foi divulgado na imprensa da época, portanto, é histórico e totalmente isento de maledicência.

 

AUTO-DE-FÉ DE BARCELONA

- Cenário desse acontecimento: Barcelona – Espanha

- Local: Praça do Quemadero - Praça Pública

- Dia e Hora: 09 de outubro de 1861 - 10hs e 30min

Podem-se queimar os livros, mas não se queimam as idéias.

Podem-se queimar homens, mas não se conseguem queimar espíritos.

Maurice Lachâtre foi, por vontade própria e/ou imposição dos fatos, o contestador espírita por excelência.

Intelectual e editor francês, achava-se estabelecido bem Barcelona com uma livraria, quando solicitou a Kardec seus livros para divulgá-los na Espanha. Só não contava com a intolerância do bispo da cidade. Por ordem deste, as obras foram apreendidas e queimadas numa grande fogueira. O episódio, ocorrido a 9 de outubro de 1861, conhecido como o Auto-de-fé de Barcelona, apenas serviu para revigorar a coragem do livreiro.(http://lachatre.com.br/editora.php) .

O Auto-de-fé de Barcelona, foi a queima, em praça pública, em Barcelona, Espanha, de 300 volumes de obras espíritas, que Kardec remetera ao livreiro Maurice Lachâtre, em 09 de outubro de 1861, às 10hs e 30min.

 

Um bispo, que se institui em juiz do que convém ou não convém à França! A sentença, portanto, foi mantida e executada, sem mesmo isentar o destinatário das despesas de alfândega, que se teve muito cuidado em fazê-lo pagar. Este dia, nove de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às dez horas e meia da manhã, sobre a esplanada da cidade de Barcelona, no lugar onde são executados os criminosos condenados ao último suplício, e por ordem do bispo desta cidade, foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber:

A Revista Espírita, diretor Allan Kardec; A Revista Espiritualista, diretor Piérard; O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec; O Livro dos Médiuns, pelo mesmo; O que é o Espiritismo, pelo mesmo; Fragmento de sonata, ditado pelo Espírito de Mozart; Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo doutor Grand; A História de Jeanne d’Arc, ditada por ela mesma à Srta. Ermance Dufau; A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta, pelo barão de Guldenstubbé.

 

Assistiram ao Auto-de-fé: “Um padre revestido das roupas sacerdotais, trazendo a cruz numa mão e a tocha na outra mão; “Um notário encarregado de redigir a ata do Auto-de-fé; “O escrevente do notário; “Um empregado superior da administração da alfândega; “Três moços (serventes) da alfândega, encarregados de manter o fogo; “Um agente da alfândega, representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo. Uma multidão inumerável encobria os passeios e cobria a imensa esplanada onde se elevava a fogueira.

 

Quando o fogo consumiu os trezentos volumes ou brochuras Espíritas, o padre e seus ajudantes se retiraram, cobertos pelas vaias e as maldições dos numerosos assistentes que gritavam: “Abaixo a inquisição!”

 

Numerosas pessoas, em seguida, se aproximaram da fogueira e recolheram as suas cinzas.

 

Uma parte dessas cinzas nos foi enviada; com elas se encontra um fragmento de O Livro dos Espíritos consumido pela metade.

 

Ato insensato, toda opinião à parte, esse assunto levanta uma séria questão de direito internacional.

Reconhecemos ao governo espanhol o direito de proibir a entrada, sobre o seu território, das obras que não lhe convém, como a de todas as mercadorias proibidas. Se essas obras tivessem sido introduzidas clandestinamente e em fraude, nada haveria a dizer; mas são expedidas ostensivamente e apresentadas na alfândega; era, pois, uma permissão legalmente solicitada. Esta acreditou dever referi-la à autoridade episcopal que, sem outra forma de processo, condena as obras a serem queimadas pela mão do carrasco. O destinatário (Maurice Lachâtre, o Livreiro) pediu, então, para reexportá-las para o lugar de origem, e lhe foi respondido pelo fim de não receber, relatado acima. Perguntamos se a destruição dessa propriedade, em tais circunstâncias, não é um ato arbitrário e fora do direito comum.

Examinando-se este assunto do ponto de vista de suas conseqüências, diremos primeiro que não houve senão uma voz para dizer que nada podia ser mais feliz para o Espiritismo. A perseguição sempre foi aproveitável à idéia que se quis condenar; por aí se lhe exalta a importância, se lhe desperta a atenção e fazendo-o conhecer por aqueles que o ignoram.

Graças a esse zelo imprudente, todo o mundo, em Espanha, vai ouvir falar do Espiritismo e quererá saber o que é; é tudo o que desejamos. Podem-se queimar os livros, mas não se queimam as idéias; as chamas das fogueiras as super-excitam em lugar de abafá-las. As idéias, aliás, estão no ar, e não há Pirineus bastante altos para detê-las; e quando uma idéia é grande e generosa, ela encontra milhares de peitos prontos para aspirá-la. O que se lhe haja feito, o Espiritismo já tem numerosas e profundas raízes na Espanha; as cinzas da fogueira vão fazê-las frutificar. Mas não será só na Espanha que esse resultado será produzido, é o mundo inteiro que lhe sentirá o contragolpe.

Vários jornais da Espanha estigmatizaram esse ato retrógrado, como o merece.

Espíritas de todos os países! Não vos esqueçais desta data de 9 de outubro de 1861; ela será marcada, nos anais do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa e não de luto, porque é a garantia do triunfo!

Entre as numerosas comunicações   que os Espíritos ditaram sobre esse acontecimento, não citaremos senão as duas seguintes, que foram dadas espontaneamente na Sociedade de Paris. Elas dele resumem todas as causas e todas as conseqüências.

O amor da verdade deve sempre se fazer ouvir: ela dissipa a névoa, e por toda a parte brilha ao mesmo tempo. O Espiritismo chegou para ser conhecido por todos; logo será julgado e colocado em prática; quanto mais houver perseguições, mais depressa esta sublime Doutrina chegará ao seu apogeu; seus mais cruéis inimigos, os inimigos do Cristo e do progresso, com isso se surpreendem de maneira que ninguém ignore que Deus permite àqueles que deixaram esta Terra de exílio de retornar para aqueles que amaram. Tranqüilizai-vos; as fogueiras se extinguirão por si mesmas, e se os livros são lançados ao fogo, o pensamento imortal lhes sobrevive.” (DOLLET).

(Nota: Este Espírito, que se manifestou espontaneamente, disse ser o de um antigo livreiro do século dezesseis.)

Era preciso alguma coisa que ferisse, com um golpe violento, certos Espíritos encarnados para que decidissem ocupar-se desta grande Doutrina, que deve regenerar o mundo. Nada é inutilmente feito sobre a vossa Terra, para isso, e nós, que inspiramos o Auto-de-fé de Barcelona, sabíamos bem que, assim agindo, faríamos dar um passo imenso para a frente. Esse fato brutal, inaudito nos tempos atuais, foi consumado para atrair a atenção dos jornalistas que permaneciam indiferentes diante da agitação profunda que abalava as cidades e os centros Espíritas; deixavam dizer e deixavam fazer; mas se obstinavam em fazer ouvido de mercador, e respondiam pelo mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo”.  

 

Por bem ou por mal, é preciso que dele falem hoje; uns, constatando o histórico do fato de Barcelona, os outros desmentindo-o, deram lugar a uma polêmica que dará volta ao mundo, e da qual só o Espiritismo aproveitará.

 

Eis por que, hoje, a retaguarda da inquisição fez seu último Auto-de-fé, porque assim o quisemos.” (SAINT DOMINIQUE. Revista Espírita, novembro de 1861 – Paris (França) Allan Kardec).

 

O Auto-de-fé de Barcelona foi a consagração do Espiritismo. Literalmente, o seu batismo de fogo.

Mas a Espanha levantou-se como um só homem, para saber o que era essa doutrina que aterrorizava o clero. A comissão episcopal foi vaiada pelo povo, e assim que a guarda armada se retirou da praça do Quemadero, onde muitos mártires tiveram seus corpos incinerados no intuito de salvar as suas almas, o povo simples recolheu as cinzas dos livros e fragmentos que não foram consumidos pelas chamas, e levaram para as suas casas.

Um exemplar de O Livro dos Espíritos, carbonizado pela metade, foi enviado a Allan Kardec, que o guardou como uma doce lembrança. A violência clerical e o servilismo do Estado, consagrou, também, o livreiro “Lachâtre”.

Muitas outras perseguições viriam.  Muitas lágrimas ainda seriam derramadas. É por isso que o movimento espírita tem que respirar liberdade, tem que ser compreensivo, mas não conivente, porque venceu a ditadura de Napoleão 3º - a força esmagadora da perseguição religiosa, o orgulho acadêmico das ciências, o esnobismo filosófico, para firmar-se como doutrina consoladora e iluminadora. (Amílcar Del Chiaro Filho) http://www.espirito.org.br/portal/artigos/amilcar/audo-de-fe-debarc...   

 

Os jornais da época não se mostraram tão moderados e se pronunciaram, mostrando a tristíssima impressão por esse ato. Citamos apenas um deles: “Eis o repugnante espetáculo que os homens da união liberal autorizaram, em pleno século XIX”.

 

A idéia era que esse ato não aumentasse o prestígio da divulgação da “Doutrina dos Espíritos”. Quando as cinzas da fogueira foram resfriadas, notava-se que as pessoas que ali se encontravam, recolhiam as cinzas para conservá-las. O absolutismo é sagaz; ensaia e pode dar um golpe de autoridade em qualquer parte; se triunfa, ousa mais, mas também se precipita, cada vez mais, no abismo para onde corre cegamente; é o que nos faz esperar o efeito produzido em Barcelona por esse Autode-fé. (Revista Espírita, dezembro de 1861 - Paris (França) – Allan Kardec).

 

Não houve, nessa atitude de levar livros por um Livreiro da França, para comercializá-los em Barcelona, nenhuma fraude, nem ardil, tendo-se pago todos os direitos alfandegários. As reclamações do Sr. Lachâtre ao cônsul francês em Barcelona, nada adiantaram. O  senhor Lachâtre, pergunta a Kardec se queria recorrer para autoridade superior; mas Kardec, embora entendesse conveniente deixar a causa correr à revelia, julgou dever consultar o seu guia espiritual.

 

Primeira Pergunta: (À Verdade).

Sem dúvida, não ignorais o que se passou em Barcelona com relação às obras espíritas; tereis a bondade de dizer-me se convém tentar o processo de restituição?

Resposta: Tens o direito de reclamar a devolução das obras e certamente as terás de volta desde que faças a reclamação por intermédio do Ministério das Relações Exteriores de França; a minha opinião porém é que maior bem resultará do Auto-de-fé, que da leitura de alguns volumes. A perda material será grandemente compensada pela repercussão que terá o ato da queima dos livros — o que concorrerá para a propaganda da doutrina.

Compreendes quanto uma  perseguição tão ridícula e tão retrógrada pode fazer progredir o Espiritismo na Espanha? As idéias espalhar-se-ão com tanto mais rapidez, as obras serão procuradas com tanto maior avidez, quanto maior for o escândalo da condenação.

Segunda Pergunta: Convém fazer um artigo no próximo número da Revista?

Resposta: Aguarda o Auto-de-fé.

O Auto-de-fé de Barcelona assinalará uma data nos anais do Espiritismo.

 

Fontes :

1- http://www.guia.heu.nom.br/auto_de_fe_de_barcelona.htm)2- http://www.espirito.org.br/portal/

codificacao/op/op-48.html

3- Livro:”Obras Póstumas 19ª Edição- FEB. ( Kardec- Allan )

 

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